




 A noiva disse jamais!
   The bride said never!
   Sandra Marton
   Casamento do ano 1

    Laurel Bennett  uma modelo linda de morrer. Aos trinta e poucos anos, j desistira dos homens. Damian Skouras  um empresrio nova-iorquino de corao e alma
gregos. A atrao entre eles chega a gerar fascas, ainda mais quando uma noite de paixo os leva a um casamento que Laurel no quer, mas que Damian exige. 
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    CAPTULO UM
    
    Damian Skouras no gostava de casamentos.
    Um homem e uma mulher, diante de um sacerdote, amigos e familiares, fazendo votos de amor e fidelidade que nenhum ser humano era capaz de cumprir, constitua 
o tema impossvel dos romances e contos de fadas para mulheres choramingonas. 
    Com certeza, no retratava a realidade. 
    No obstante, l estava ele, diante de um altar ornado de flores, ao som estrondoso da Marcha Nupcial de Mendelssohn, assistindo, junto com mais uma centena 
de pessoas, ao avano compassado de uma noiva enrubescida em sua direo. 
    Era bonita, tinha que reconhecer, mas recordava o velho ditado. Toda noiva  bonita. Aquela, majestosa num antiquado vestido de cetim e renda brancos, segurando 
um buqu de minsculas orqudeas branco e prpura, apresentava uma aura que a tornava mais que bela. Atravs do veuzinho difano, vislumbrou seu sorriso radiante 
ao chegar ao altar. 
    O pai beijou-a. Ela soltou-lhe o brao e fitou amorosamente o noivo  espera, e Damian agradeceu em silncio aos deuses de seus ancestrais gregos por no ser 
ele. 
    Se bem que o fato de ser Nicholas no era menos mau. 
    Nick agitou-se, e Damian olhou para o rapaz que estivera sob sua tutela at trs anos antes. 
    - Tudo bem? - murmurou, vendo-o plido. 
    O noivo engoliu em seco, movimentando o pomo-de-ado. 
    - Claro. 
    Ainda no  tarde demais, meu caro, Damian desejou dizer, mas conteve-se. Aos vinte e um anos, Nick j no era mais criana. Alm disso, era tarde demais, uma 
vez que ele acreditava estar apaixonado. 
    Certa noite, ele aparecera em seu apartamento contando que ia se casar com uma garota que conhecera menos de dois meses antes. 
    Com pacincia e palavras cuidadosamente escolhidas, apresentara uma dezena de motivos pelos quais era errado casar-se to apressadamente e nessa idade. No entanto, 
uma vez que o rapaz tinha resposta pronta para cada argumento, explodira: 
    - O que foi que aconteceu, afinal? Vocs passaram dos limites? Indignado, Nick o esbofeteara, ou melhor, tentara esbofete-lo. 
    Apesar de ser dezessete anos mais novo, era mais baixo e no tivera as mesmas lies duras de Damian nas ruas de Atenas; na juventude. 
    - Ela no est grvida - garantira Nick, mantido a um palmo de distncia. - Ns estamos apaixonados. 
    - Sei - desdenhara ele. 
    O rapaz tinha os olhos obscurecidos de fria. 
    - Puxa, Damian, ser que no sabe o que  o amor? 
    Damian sabia, sim. Sabia tambm que o que prendia Nick era o desejo, no o amor, e quase lhe dissera isso, mas a essa altura j se acalmara o bastante para perceber 
que assim s provocaria mais briga. Era evidente que, quanto mais discutiam, mais o rapaz se determinava a fazer as coisas a seu modo. 
    Mudando de ttica, imitou a atitude que sua irm e o marido dela teriam tomado, se estivessem vivos. Ao final do sermo sobre responsabilidade e maturidade, 
com nfase na sabedoria da espera durante alguns anos, Nick esclarecera que j ouvira tudo aquilo dos pais de Dawn, e que os conselhos at podiam se aplicar a algumas 
pessoas, mas no tinham nada a ver com ele e Dawn e com o que sentiam um pelo outro. 
    Ento, Damian, que fizera fortuna por saber quando ser agressivo e quando capitular, aceitara o inevitvel, desejando ao sobrinho felicidade, esperando que um 
dos jovens apaixonados recuperasse o bom senso. 
    Mas isso no aconteceu, e l estavam eles, ouvindo a ladainha do sacerdote a respeito da vida e do amor, enquanto um monte de mulheres bobas,  incluindo a me 
da noiva, choravam em silncio. Por qu? Ela era divorciada. Bolas, ele tambm era divorciado e, retrocedendo uma gerao, se reconhecesse que o casamento de seus 
pais fora uma farsa, estes tambm engrossavam a triste estatstica das unies desfeitas. Metade dos convidados provavelmente provinha de casamentos fracassados, 
incluindo o pastor hipcrita que conduzia aquela enfadonha cerimnia no-grega. 
    Tanta pompa e circunstncia, e para qu? No fazia sentido. Ao menos sua breve e memorvel incurso  praa de guerra do casamento, doze anos antes, nunca fora 
um enlace verdadeiro. No houvera convidados, nem msica de rgo, nem flores em profuso. Nada de cnticos gregos, nem de um clrigo inspido como aquele. 
    Casara-se por impulso, em Las Vegas, aps um final de semana comemorando seu primeiro grande negcio com muito sexo, champanhe e pouco juzo. Infelizmente, s 
fizera esse balano vinte e quatro horas depois. O casamento-relmpago resultara num divrcio no to rpido, graas  cnjuge avarenta e sua comitiva de advogados 
gananciosos. 
    Tudo por causa da lascvia, que Nick no imaginava capaz de se fazer passar por amor. 
    Os glidos olhos azuis de Damian obscureceram-se. No era hora de pensar nisso. Talvez ocorresse um milagre e tudo desse certo. Talvez, dali a anos, olhasse 
para trs e reconhecesse que estivera errado. 
    Cus, assim esperava! 
    Amava Nick como se fosse sua prpria carne e sangue. Tratava-se do filho que nunca tivera e provavelmente nunca teria, considerando a realidade do casamento. 
Eis por que concordara em comparecer  cerimnia tediosa e at em danar com uma dama de honra gorducha, a melhor amiga da noiva, tmida e desesperadamente temerosa 
de ver-se  um enfeite de parede na recepo que se seguiria. 
    Sim, faria tudo o que cabia a um pai postio. Ento, no fim do dia, voltaria  hospedaria no lago onde passara a noite anterior com Gabriella e a levaria novamente 
para a cama. 
    Era a melhor maneira de superar a frustrao de no ter orientado o sobrinho bem o bastante para se proteger da dor que certamente o golpearia em pouco tempo, 
bem como de purgar a mente de todo aquele intil artifcio sentimental. 
    Damian olhou para sua amante do momento, acomodada na terceira fileira. Gabriella no se deixava enganar, tampouco. Assim como ele, j experimentara o casamento 
e no gostara. Casamento no passava de uma palavra alternativa a escravido, afirmara ela, no incio do relacionamento... se bem que ela mudara, desde ento. Tornara-se 
menos amorosa, mais possessiva. 
    - Onde esteve, Damian? - interrogava, se ele falhasse em telefonar um dia. 
     interpretara equivocadamente a mudana dele para um novo apartamento. Por pouco, no lhe fizera a "surpresa" de comprar moblia nova. 
    Gabriella reagira furiosa, mas ele percebera nela uma fragilidade que nunca imaginara antes desse episdio. Hoje, porm, ela era s doura e luz. 
    Na noite anterior, durante o ensaio, j notara um brilho diferente em seus olhos castanho-escuros. Num dado momento, lanando-lhe um sorriso trmulo, ela levara 
o leno rendado ao canto dos olhos. 
    Era preocupante. Talvez fosse hora de romper com Gabriella. Estavam juntos havia quase seis meses. Quando uma mulher comeava a olhar daquele jeito... 
    - Damian? 
    Esforou-se para se concentrar nas palavras do pastor. 
    - Se h algum entre ns que saiba de algum motivo pelo qual Nicolas Skouras Babbitt e Dawn Elizabeth Cooper no podem se casar, que fale agora ou se cale para 
sempre... 
    Bam! 
    A porta de duas folhas na frente da igreja escancarou-se, batendo contra as paredes caiadas. Ouvindo um farfalhar de tecido, os convidados agitaram-se nos bancos, 
voltando-se para ver o que acontecia. At os noivos olharam para trs, surpresos. 
    Uma mulher permanecia  entrada, a silhueta bem-delineada contra a luz da tarde primaveril. O mesmo vento que lhe tomara as portas agitava seu cabelo selvagemente 
e enfunava-Ihe a saia em torno das pernas. 
    A mulher avanou do brilho exterior para a sombra interior. Os murmrios tornavam-se mais excitados. 
    No era de admirar, concluiu Damian. A recm-chegada era de uma beleza incrvel. 
    Ela no parecia estranha, mas se j houvessem se encontrado certamente saberia seu nome. Um homem no se esquecia facilmente de uma mulher como aquela. 
    Os cabelos dela tinham a cor do outono, um ruivo profundo com mechas douradas, encaracolando-se junto ao rosto oval, de mas altas. Os olhos grandes pareciam 
cinzentos, ou azuis. No exibia jia alguma, se bem que jias no teriam chamado ateno tendo ao fundo tanta beleza. Seu vestido lils tambm era simples, de decote 
redondo e mangas compridas, mas no havia nada de modesto no corpo que cobria. 
    Apreciou a mulher, notando os seios altos, a cintura fina e os quadris arredondados. Era uma estranha combinao de sensualidade e inocncia, ainda que esta 
ltima fosse dissimulada. Tinha de ser. No se tratava de uma criana. Tratava-se de uma mulher atordoante demais, muito segura de si. 
    Outra rajada de vento entrou pela porta aberta. A mulher segurou a saia, mas no antes que ele desse uma boa olhada em suas longas e bem torneadas pernas, o 
sonho de qualquer homem, bem como na calcinha de renda preta que ela usava por baixo. 
    Os espectadores agitavam-se mais e mais. Algum riu alto. A mulher ouviu, mas, longe de demonstrar constrangimento, endireitou os ombros e adotou uma expresso 
de desdm. 
    Posso mudar essa sua expresso, pensou Damian, sentindo o desejo derramar-se em seu sangue como lava derretida. 
    Bastava-lhe percorrer o corredor, ergu-Ia nos braos e carreg-Ia para o prado que se estendia como um tapete verde colina abaixo, atrs da igreja. No topo 
de uma das colinas seguintes, iria pous-Ia na relva macia e sorver a doura de sua boca, ao mesmo tempo que lhe abriria o zper do vestido lils. Aps degustar 
cada centmetro de seu corpo, iria acomodar-se entre suas coxas e penetr-Ia, movendo-se em meio a seu calor at que ela gritasse de paixo. 
    Damian sentiu a boca seca. O que se passava com ele? No era nenhum adolescente concupiscente. No fazia sentido. Eis que a mulher levanta o rosto e contempla 
o altar, os olhos seguros procurando os dele. E sorriu-lhe, como se dissesse: "Sei o que est pensando, e acho muito divertido". 
    Com um troar nos ouvidos, Damian cerrou os punhos e deu um passo na direo do corredor. 
    Nesse instante, outra rajada de vento arremessou as portas de novo contra as paredes caiadas da velha igreja. Um convidado na ltima fileira levantou-se e foi 
fech-Ias. 
    A mulher procurou um lugar vago. Uma vez acomodada, cruzou as pernas maravilhosas e pousou as mos no colo, parecendo entediada, como se indagasse: "Por que 
no prosseguem?" 
    Lentamente, quase relutantes, os convidados voltaram-se para o altar. 
    - Bem, de acordo com as leis de Deus e do Estado de Connnecticut, eu os declaro marido e mulher - concluiu o sacerdote, apressado, como se temesse novas interrupes. 
    Nick voltou-se para a esposa, segurou-a pelos ombros e beijou-a. 
    O organista iniciou outra marcha, os convidados levantaram-se e Damian perdeu a mulher de vista na confuso de rostos e corpos. 
    
    Salva pelo gongo, pensou Laurel, ou melhor, por uma marcha executada ao rgo. 
    Que jeito de entrar! J era ruim o bastante ter-se atrasado para o casamento da sobrinha, mas interromp-lo, chamando a ateno de todos ... 
    Reprimiu um lamento. 
    Na semana anterior, durante o almoo, Dawn previra que aconteceria exatamente isso. 
    Annie, sua irm mais velha, levara a filha a Nova York para a ltima prova do vestido de noiva e todas encontraram-se para almoar no Tavern on the Green. Dawn, 
com toda a frivolidade de seus dezoito anos, olhara para ela e suspirara diante de suas fotos de moda. 
    - Oh, tia Laurel, voc  to linda! Gostaria de ser parecida com voc. 
    Olhando por sobre a mesa para o belo rosto inocente, isento de maquiagem e das marcas da estrada rdua que era a vida, Laurel lhe sorrira. 
    - Se eu tivesse o seu rostinho, ainda seria capa de revista - retrucara, gentil. 
    Passaram a conversar sobre a carreira em declnio de Laurel, Annie e Dawn insistindo que no estava em declnio de forma alguma, bem como sobre seus planos futuros, 
que na verdade no eram to interessantes quanto conseguira fazer crer. 
    Inevitavelmente, falaram em seguida do casamento da adolescente. 
    - Vai ser a noiva mais linda do mundo - garantira Laurel. Vermelha, Dawn declarou que esperava que Nick a visse assim, embora tivesse certeza de que a mulher 
mais bonita presente  cerimnia seria sua tia Laurel. 
    Nesse instante, Laurel prometera a si mesma no roubar os holofotes, nem mesmo inadvertidamente. Um rosto famoso, ou um rosto outrora famoso, podia fazer isso 
ao entrar num recinto simplesmente, e jamais submeteria as pessoas que amava a tal situao... 
    Com isso em mente, naquela manh, em vez do fino conjunto cor-de-rosa comprado para a ocasio, vestira aquele modelo lils j com dois anos de armrio. E em 
vez de prender os cabelos no penteado que tornara famoso, puxado para trs e presos em coque frouxo no alto da cabea, com caracoizinhos soltos ao longo do pescoo, 
apenas escovara-o, deixando-o solto sobre os ombros. Disspensara tambm as jias, bem como o batom e o rmel aplicados levemente que costumava usar quando no estava 
nas passarelas, nem diante das cmeras. 
    E at sara de casa cedo, tomando na Penn Station um trem que devia t-Ia deixado em Stratham pelo menos uma hora antes do incio da cerimnia. S que o trem 
pifara em New Haven, e ela comeara a procurar um txi, quando anunciaram que um outro trem estava a caminho para completar a viagem dos passageiros. 
    Esperara, ento, por quase meia hora, e soube que no era um trem que estivera a caminho, mas um nibus, que levaria muito mais tempo para completar o percurso. 
Se houvessem informado corretamente, teria tomado logo um txi. Como j estava atrasada, embarcou no nibus mesmo e, quando finalmente chegou a Stratham, perdeu 
mais algum tempo procurando um txi. 
    - Tia Laurel? 
    Laurel levantou o rosto. Dawn e seu belo e jovem marido chegavam ao banco em que estava sentada. 
    - Oh, querida - encantou-se, levantando-se para abraar a sobrinha. 
    - Foi uma chegada e tanto - provocou Dawn, marota. 
    - Oh, Dawn, desculpe... 
    Tarde demais. Os recm-casados j seguiam para o fim do corredor, rumo s portas agora abertas e  escadaria frontal da igreja. 
    Laurel lamentou-se. Sabia que a sobrinha apenas brincara, mas, se pudesse refazer a terrvel cena de sua chegada... 
    Aps saltar do txi, diante da igrejinha, afligira-se indecisa entre comparecer  cerimnia atrasada mesmo ou perd-Ia, concluindo que ausentar-se seria pior. 
Abrira as portas com todo o cuidado, mas ento o vento as arrebatara de suas mos e o que viu em seguida foi todos os pares de olhos presentes voltados em sua direo. 
    Incluindo o dele. Daquele homem. Daquele homem detestvel, arrogante e egosta. 
    Seria o tutor de Nicholas? Ou melhor, ex-tutor. Damian Skouras, se bem se lembrava. S podia ser ele, ocupando aquela posio importante no altar. 
    Bastara-lhe uma olhada para saber tudo sobre Damian Skouras. 
    Infelizmente, conhecia bem o tipo. Tinha o fsico por que todas as mulheres suspiravam: ombros largos, cintura estreita, corpo duro e rosto bonito, com olhos 
azuis que pareciam reluzir em contraste com a pele morena. Os cabelos penteados para trs lembravam ondas do mar  meia-noite, pondo em destaque um minsculo brinco 
de ouro. 
    Beleza e dinheiro, concluiu Laurel, amarga. No era s a casaca elegante e a cala preta cobrindo aquelas pernas musculosas que o denunciavam, mas sua atitude 
arrogante, negligente. Era tambm o modo como ele a olhara, imaginando um novo brinquedo, embrulhado para presente, pronto para seu prazer. At lhe sorrira gentil, 
mas seus olhos disseram tudo: "Gostaria de livr-Ia desse vestido e ver o que h por baixo" 
    Pois pode esperar sentado, desdenhou Laurel, fria. 
    Estava cansada de tudo aquilo. O mundo estava cheio de homens insolentes que deixavam o dinheiro e o poder subir-Ihes  cabea, 
    No passara quase um ano nas mos de um deles? 
    O restante da comitiva percorria o corredor agora, as damas-de-honra trocando risadinhas num frenesi de saias em tons pastis, os pajens sorridentes e lindos 
na roupa formal. Annie aproximou-se com o ex-marido e deteve-se rapidamente para abraar Laurel. 
    Ela misturou-se aos convidados apressada, sabendo que ele vinha em seguida, o sujeito que a despira com os olhos. L estava ele, fechando o cortejo, o brao 
enganchado numa dama de honra que mais se arrastava do que andava. 
    A mocinha fitava-o maravilhada, enquanto ele despejava em cima dela todo seu charme, os dentes alvos cintilantes contra a pele bronzeada artificialmente. Aparentemente, 
o tipo musculoso com conta bancria saudvel a fascinava. E o macho estava adorando a adulao. 
    Sem poder se conter, Laurel destacou-se dos demais espectadores e postou-se diante do homem. 
    A dama de honra, ofuscada pelo acompanhante, foi detida pelo brao enganchado quando ele estacou. 
    - O que foi? - indagou a mocinha. 
    - Nada - respondeu ele, os olhos fixos nos de Laurel. 
    A dama de honra olhou para Laurel. Apesar da pouca idade, foi tomada pela desconfiana. 
    - Ento, vamos, Damian! Temos de alcanar os outros. 
    - V voc, Elaine. - Ele soltou-lhe o brao. - Estou logo atrs. 
    - Claro - concordou a mocinha, mal-humorada. 
    To prxima agora, Laurel constatou que os olhos do homem exibiam um tom de azul que ela nunca vira antes, frio, claro, o contorno das ris bem preto, como que 
realado por lpis. Gelo puro, concluiu. Lminas de gelo do mar polar. 
    Sentiu a pulsao no pescoo. Devia ter ficado escondida, em vez de confrontar-se com ele dessa maneira. 
    - Pois no? - indagou ele, com leve sotaque. 
    A voz grave combinava perfeitamente com a frieza de seus olhos. A igreja j estava vazia. A poucos metros, alm das portas, ouviam-se risos, mas ali, em meio 
ao silncio e as sombras do fim da tarde, ela s ouvia o prprio corao.
    - Tem algo a me dizer? 
    Ele falava com educao, mas as palavras geladas tiravam o flego de Laurel. Pensou em fugir, mas nunca fugira de nada na vida. Alm disso, por que deixaria 
aquele estranho levar a melhor? 
    No havia nada a temer. Em absoluto. 
    Sendo assim, esticou-se em toda a altura, lanou os cabelos para trs e adotou sua mscara de indiferena, a mesma que exibia em pblico e que a ajudara a tornar:se 
uma estrela nas passarelas de Nova York a Milo. 
    - Apenas que voc estava lamentvel flertando com aquela mocinha. 
    Ele pareceu no entender. 
    - O qu? 
    - Que tal propor seu joguinho a algum com idade bastante para reconhecer suas intenes? 
    O homem contemplou-a por vrios segundos, tantos que Laurel chegou a considerar-se em vantagem. Mas ento ele sorriu de um jeito que fez seu corao saltar, 
aproximando-se at que apenas um palmo os separasse. 
    - Qual  o seu nome? 
    - Laurel. Laurel Bennett, mas isso no. 
    - Concordo plenamente, srta. Bennett. O jogo  muito mais divertido quando disputado por pessoas do mesmo nvel. 
    Ela chegou a ver, nos olhos dele, o prximo movimento, mas era tarde demais. Antes que pudesse recuar, ele avanou, tomou-a nos braos e beijou-a. 
    
    
    CAPTULO DOIS
    
    Laurel consultou o relgio disfaradamente. 
    Mais uma hora e poderia ir embora sem chamar a ateno. S mais uma hora, presumindo que agentasse tanto tempo. 
    O homem a seu lado  mesa para seis, Evan Sei-L-o-Qu, contava uma piada. Ou melhor, o doutor Evan Sei-L-o-Qu, conforme observara Annie, a eterna cupido, 
ao cumprimentar os convidados pouco antes. 
    Tratava-se de boa pessoa, apesar do nariz vermelho e cara de coelho, s que aquela j era sua nona piada, ou qinquagsima nona, da noite. Simplesmente perdera 
a conta entre o coquetel de camaro e o delicioso Beouf aux Chanterelles. 
    Pouco importava. De qualquer forma, no teria conseguido concentrar-se no que quer que fosse aquela noite. Seus pensamentos teimavam em voltar-se sempre na mesma 
direo, direto para Damian Skouras, que permanecia  mesa na plataforma ao lado de uma loira ricamente vestida. No que a presena da mulher o impedisse de observ-Ia. 
    Sabia que ele a observava, mesmo sem virar-se para confirmar. 
    No havia necessidade. Sentia a fora do olhar em seus ombros. Se olhasse para ele, veria um par de raios laser azuis partindo daquele rosto orgulhoso e arrogante. 
    Confirmara to-somente tratar-se mesmo de Damian Skouras, o tutor de Nicholas. Ou ex-tutor. Nick contava vinte e um anos, trs mais do que precisaria para poder 
casar-se sem permisso. Annie no desejara o casamento, bem o sabia. Dawn e Nick eram jovens demais. Abstivera-se-de opinar, mas, agora, conhecendo o homem que criara 
Nick, espantava-se com o fato de a irm no ter apresentado uma segunda objeo. 
    Quem desejaria para genro um rapaz que tivera como modelo um egosta como Damian Skouras? 
    At j o chamara de egosta na cara, ao se encontrarem pela segunda vez, depois daquele beijo, na fila de cumprimentos. Pois tentara passar ignorando-o, como 
se no existisse, mas ele lhe segurara a mo e apresentara-se com toda a educao, como se nunca houvessem se visto at aquele instante. 
    - Relaxe, srta. Bennett - sussurrara ele, enquanto ela tentava desvencilhar a mo. -No vai querer fazer outra cena, vai? Basta uma por dia, mesmo para voc. 
    - No fui eu que fiz aquela cena, seu... 
    - Meu nome  Damian Skouras - cortou ele, sorrindo irnico. 
    - Talvez goste de chamar a ateno, mas hoje  o dia de Nicholas e Dawn, portanto, comporte-se, sorria e finja estar se divertindo, est bem? 
    O pior era que ele tinha razo. A fila parara de andar e os convidados atrs dela j esticavam o pescoo, tentando descobrir qual era o problema. Sorrindo simptica, 
garantiu ao dspota que lhe prendia a mo que se divertiria ainda mais fazendo de conta que ele desaparecera da face da Terra. 
    Damian apertara ainda mais sua mo, os olhos de repente obscuros e assustadores. 
    - Nunca vai conseguir fazer isso no que se refere a mim  replicou, em voz baixa. - J se esqueceu do que aconteceu quando a beijei? 
    Laurel sentira a cor tomar-lhe as faces. Com a mo liberta, por fim, seguiu adiante apressada. 
    No, ela no se esquecera do que sentira ao ser beijada por ele. Aps a primeira reao de raiva e choque, agarrara-se aos ombros largos dele e entreabrira os 
lbios sob os dele, juntando seus corpos deliciosamente... 
    Os demais convivas  mesa explodiram numa gargalhada,  concluso de mais uma piada do doutor Evan Sei-I-o-Qu, e Laurel riu tambm, com um segundo de atraso. 
    - Parece que j conhecia essa - comentou o piadista, como se se desculpasse. 
    - No, no conhecia - garantiu Laurel, polida. - Acho que estou com problema de fuso horrio. Cheguei de Paris ontem e ainda no me adaptei. 
    - Paris, linda cidade! - comentou Evan. - Estive l no ano passado, numa conferncia. 
    -  mesmo? 
    - Estava l a trabalho ou de frias? - quis saber ele. 
    - A trabalho. 
    - Imagino que v l com freqncia. 
    - Bem... 
    - Para desfiles, no  assim que chamam? 
    Laurel fitou-o surpresa. 
    - Isso mesmo. Como foi que... ? 
    - Eu a reconheci - explicou Evan. - Alm disso, Annie me contou. Sou o dentista dela e de Dawn. Na ltima consulta, Annie comentou: "Espere s at conhecer minha 
irm caula no casamento.  a modelo mais linda do mundo. - Apagou o sorriso. Mas no concordo. 
    Laurel nem piscou. L vinha mais uma cantada. 
    - Ah, no? 
    - Voc no  a modelo mais linda do mundo,  a mulher mais linda do mundo. 
    Laurel riu bem-humorada. 
    - Precisa perdoar Annie. Ela adora o papel de cupido. 
    - Mas no  nem um pouco exagerada - retrucou Evan, inclinando-se para mais perto dela. - Se visse alguns dos "encontros" que andaram arranjando para mim... 
    - Isto no  um encontro, doutor - observou Laurel, fria. 
    Vendo-o recuar, abrandou-se. 
    - Quero dizer, imagino. Tambm j fui vtima de arranjos equivocados, digamos assim. 
    O dentista balanou a cabea. 
    - Cupidos. Nunca desistem, no  mesmo? E, por favor, me chame de Evan. 
    - Est bem, Evan. 
    - S que Annie no errou desta vez - comentou o dentista, voltando  carga. - Quero dizer, voc... no est comprometida? 
    Annie, o que fao com voc?, pensou Laurel, exausta. A irm tentava arranjar-lhe um par havia anos, mas aumentara os esforos aps seu rompimento com Kirk. 
    - Antes, no queria se prender por causa da carreira - ralhava  Annie, cada vez que se encontravam. - Agora,  porque se decepcionou com Kirk. 
    - No quero falar sobre isso - esquivava-se ela. 
    Mas a irm prosseguia na tortura, exaltando as alegrias do matrimnio, como se ela mesma no houvesse desmanchado o dela anos antes, tanto que via-se obrigada 
a mentir, garantindo que se casaria assim que encontrasse o homem certo. 
    Na verdade, porm, no pretendia se casar. Em sua opinio, a mulher precisava do homem s para abrir vidros de conservas e se satisfazer sexualmente. Pois j 
havia no mercado acessrios para abrir vidros de conservas. Quanto ao sexo... costumava-se superestim-Io, eis o que aprendera em seu relacionamento com Kirk. Talvez 
fosse mais importante para mulheres que no se dedicavam a uma profisso. Para quem tinha a agenda sempre cheia, o sexo no passava de uma necessidade biolgica, 
a exemplo de comer e beber, mas bem menos importante do que estas. 
    - Desculpe, eu no devia ter perguntado - disse Evan, constrangido. 
    Laurel saiu do devaneio. 
    - Oh, no, no se desculpe.  que... 
    Algum aproximou-se por trs de ambos. 
    - Srta. Bennett? 
    Laurel enrijeceu-se. No precisava voltar-se para saber quem era. Ningum conseguiria pronunciar seu nome com tanto efeito a no ser Damian Skouras. 
    Levantou o rosto e viu de de p ao lado da cadeira. 
    - Pois no? - respondeu, glida. 
    - Gostaria de danar? - 'convidou ele, sorridente. 
    - Lamento, estou indisposta. 
    - Ah, mas esto tocando nossa msica! 
    Laurel encarou-o estupefata. At ento, mal prestara ateno s msicas tocadas pela banda, velhos sucessos da dcada de sessenta. Agora que os msicos descansavam, 
o que flua dos altofalantes era uma valsa. 
    - Uma valsa antiquada, para uma moa antiquada - observou Damian, estendendo a mo. 
    Os demais convivas  mesa prenderam a respirao. Laurel sentia todos os olhares sobre si, mas no se constrangeu. Damian Skouras j fora longe demais em seu 
atrevimento. 
    - No lugar de onde venho, um homem que abandona a acompanhante numa festa para danar com outra mulher chama-se... 
    - E ento, esto todos se divertindo? - interrompeu uma alegre voz feminina . 
    Era Dawn, aproximando-se da mesa sorridente na companhia de Nick. 
    Todos procuraram se recompor, e algum respondeu: 
    - Sim, a festa est maravilhosa! 
    - Que bom! - exultou Nick, s ento notando Damian de p ao lado da cadeira de Laurel. - Oh, vejo que j se conheceram! 
    Damian tentou disfarar o embarao. 
    - , j tivemos o prazer. 
    - Damian acaba de comprar um apartamento em Paris - comentou Nick, dirigindo-se a Laurel. - Podia lhe dar umas dicas de compras, voc sabe, mveis, objetas de 
decorao ... Deve conhecer as melhores lojas, pais viaja tanto para l a trabalho! 
    Laurel raciocinou rpida. 
    - Na verdade, no conheo a cidade to bem assim. O trabalho me toma quase todo o tempo que passo l. 
    - Que cidade voc conhece bem, ento? - questionou Damian, irnico. 
    - Nova York - respondeu Laurel, mal-humorada. 
    - Que coincidncia! - festejou ele. - Acabei de comprar um condomnio l. 
    - Pensei que tinha sido em Paris. 
    - Paris, Manhattan... - Damian deu de ombras. - Meus negcios me levam a muitos lugares, srta. Bennett, e no h nada melhor da que voltar para casa  noite. 
    - E gozar da companhia da moa loira que o acompanha? - sugeriu Laurel. 
    - Tia Laurel! - repreendeu Dawn, pasma. 
    - Est tudo bem, querida - apaziguou Damian, sem tirar as olhos de Laurel. - Sua tia e eu nos entendemos muito bem,no ,  srta. Bennett? 
    - Sem dvida, sr. Skouras. - Laurel voltou-se ento para o convidado a seu lado  - Gostaria de danar, Evan? 
    O dentista ficou vermelho como tomate e olhou para Damian. 
    - Mas pensei que... 
    - Pensou errado, senhor - cortau Damian, polido. - Enquanto ouvamos as interessantes pontos de vista da srta. Bennett, tive a chance de reconsiderar. - Voltou-se 
para a noivinha feliz. Querida, eu ficaria honrada se abandonasse Nicholas e me concedesse essa valsa. 
    Dawn mal disfarou a alvio... - Vou adorar. 
    Os dois casais partiram para a pista de dana. 
    Ponto para mim, comemorou Laurel, olhando hostil para Damian Skouras por cima do ombro de Evan. Da prxima vez, aquele arrogante pensaria duas vezes antes de 
impor-lhe seus joguinhos. 
    
    Gabriella Baldini cruzava e descruzava as longas pernas desajeitadamente sob a painel da carro alugado de Damian. 
    - Francamente, Damian, no sei por que no arranjou  uma limusine - reclamou. 
    Ele suspirou, concentrado na tortuosa estrada da montanha, decidindo no responder  observao que a acompanhante j fizera mais de dez vezes desde que haviam 
sado de Stratham. 
    - Logo vamos chegar  pousada - comentou. - Por que no recosta a cabea e tira um cochilo? 
    - No estou cansada, Damian. S estou dizendo que... 
    - Sei o que est dizendo. Que preferia outro carro... 
    Gabriella cruzou as braos. 
    - . 
    - Um carro maior, com chofer. 
    - Isso mesmo. Ou podia ter pedido a Stevens que nos trouxesse. No precisamos passar desconforto, mesmo no meio do mato. 
    Damian riu. 
    - No estamos no meio do mato, Gaby. A pousada fica a apenas sessenta quilmetros de Bostan. 
    - No precisa interpretar literalmente! - irritou-se a moa. 
    - Sei onde estamos. Passamos a noite passada l, no passamos? 
    Cruzou as pernas outra vez, a saia de seda preta erguendo-se mais um pouca sobre as coxas. 
    - O que me faz lembrar: j que aquele estabelecimento no oferece servio de quarto... 
    - L tem servio de quarto. 
    - L vem voc de novo interpretando literalmente. No tem servio de quarto aps as dez. J esqueceu o que aconteceu quando pedi um ch ontem  noite?
    Damian apertou as mos no volante. 
    - O gerente ofereceu-se  para prepar-Io e lev-Io pessoalmente  sute, Gaby. 
    - Acontece que eu queria ch de ervas, no aquela coisa de saquinho.. E j lhe disse mais de mil vezes que no gosto que me chamem de Gaby. 
    Inferno, pensou Damian, fatigado.. No era casado com aquela mulher, mas qualquer um que os ouvisse teria a certeza de que estavam unidos pelos sagrados laos 
do matrimnio havia no mnimo uma dcada. 
    No que um pouco de altercao no o divertisse, de vez em quando, a exemplo da que tivera com a estonteante convidada na casamento de Nicholas. Laurel Bennett 
enfurecera-o, no final, expondo-o ao ridculo diante de todos, mas, tinha de reconhecer, era perspicaz. 
    - "Gaby" parece apelido de alguma personagem idiota num filme do Velho Oeste... - prosseguia a acompanhante, incansvel. 
    E arrebatadora. Quanto mais a via, mais, se convencia de que nunca vira rosto mais belo. Dawn contara-lhe que ela era modelo. Sempre achara as modelos uns seres 
andrginos, s pele e osso, mas Laurel Bennett tinha curvas bem femininas. Eis por que a convidara para danar. Para ter aquele corpo nas mos e verificar se era 
to macio quanto parecia. 
    - No est correndo muito? - advertiu Gabriella. - Mal enxergo o caminho, est to escuro... 
    Damian endureceu o queixo e diminuiu a presso do p sobre o acelerador. 
    - Melhorou? 
    Gabriella no respondeu. Recostando-se no banco, cruzou os braos, amuada. 
    O carro foi tomado pelo silncio. Damian comeava a relaxar quando a acompanhante voltou a se manifestar:  
    - Francamente, algumas pessoas no tm senso de ridculo. Damian olhou-a rapidamente. 
    - Concordo. 
    - Como aquela mulher, por exemplo. 
    - Que mulher? 
    - Aquela que entrou daquele jeito escandaloso. Aquela de cabelo vermelho ressecado. 
    Damian suprimiu o riso. Eis o motivo do mau humor de Gabriella. 
    - No achei o cabelo dela ressecado - contrariou. 
    - Ah, os homens no entendem nada disso. 
    Entendemos, sim, pensou Damian. O que teria acontecido  natureza dcil de Gabriella, bem como a seu charmoso sotaque italiano? A primeira comeara a desaparecer 
de algumas semanas para c. O segundo vinha enfraquecendo cada vez mais ao longo da ltima hora. 
    - E o vestido dela, voc viu? - continuou a moa, desdenhosa. - Quem podia imaginar que fosse a tia da noiva? 
    - Quem? - indagou Damian, sonso. 
    Gabriella olhou-o raivosa. 
    - Estou falando daquela mulher de vestido barato e cabelo pintado. 
    - Ah. - Vendo a sada para a pousada, Damian diminuiu a velocidade e tomou o caminho de cascalho. - A modelo. 
    - Modelo, pois sim! Todo mundo sabe que vida elas levam, principalmente aquela l. - Gabriella bufava de indignao. Dizem que j teve dezenas de amantes. 
    - Jura? Que mais dizem dela? 
    A acompanhante baixou o protetor solar e mirou-se no espelho do verso. 
    - No perco meu tempo com fofocas - replicou, afofando o penteado. - Mas o que se pode pensar de algum que posa nua? 
    Damian foi assaltado pela imagem de Laurel Bennett nua em sua cama. Com esforo, conduziu o carro pelos poucos metros que faltavam. 
    - Nua? - repetiu, disfarando o interesse. 
    - Para a campanha publicitria de um estilista a, saiu numa revista este ms. - Gabriella recolocou o protetor solar no lugar. - Nu artstico, como dizem, tudo 
meio indistinto, velado... - Satisfeita, concluiu: - S podia ser assim, considerando que ela j est meio "passada". De qualquer forma, ela posou nua em plo! 
    Damian continuava imaginando Laurel sem roupa nenhuma em poses provocantes. 
    - Interessante - comentou. 
    - Vulgar, isso sim! - opinou a acompanhante, impiedosa. -  por isso que no entendo por que lhe dirigiu a palavra. 
    - Pare com essa bobagem, Gabriella. 
    - Vi muito bem o jeito como voc olhou para ela e no gostei nem um pouco! Voc me deve satisfaes, sim! 
    Damian parou  entrada da pousada, desligou o motor e voltou-se para Gabriella. 
    - Satisfaes? 
    - Isso mesmo. J estamos juntos h um bom tempo. Isso no significa nada para voc? 
    - Eu no fui infiel. 
    - No  disso que estou falando e voc sabe. - Ela respirou fundo. - Consegue dizer na minha cara que no sentiu nada durante toda a recepo? 
    - Senti o que sempre sinto em casamentos - retrucou Damian. - Incredulidade ao ver duas pessoas submetendo-se a um absurdo desses, com a esperana intil de 
fazer dar certo um arranjo que vai contra a natureza. 
    A moa comprimiu os lbios. 
    - Como pode dizer isso? 
    - Porque  verdade. Sempre soube minha opinio a respeito, desde o incio. E disse que pensava da mesma forma. 
    - Esquea o que eu disse! - esquivou-se ela. - E voc ainda no respondeu a minha pergunta. Por que abordou aquela mulher? 
    Porque quis. Porque voc no  minha dona. Porque Laurel Bennett me intriga, ao passo que voc nunca me intrigou, nem no comeo de nossa relao. 
    Damian expirou sonoramente. J era tarde, estavam ambos cansados e sem condies de argumentar ou tomar decises. Passou os dedos de leve no rosto de Gabriella, 
ento inclinou-se por sobre seu colo e abriu-lhe a porta. 
    - Por que no espera no saguo enquanto estaciono o carro? 
    - No falei? Se tivssemos vindo de limusine, voc no teria que me abandonar aqui, no meio do nada. Mas voc faz tudo sempre a seu modo, sem a menor considerao 
por mim ou meus sentimentos. 
    Damian fitou o rosto da amante, agora banhado pela luz fluorescente, e no o achou to belo quanto antes, a petulncia e o cime indisfarado endurecendo-lhe 
os traos. 
    - Gaby, j  tarde. No vamos falar disso agora. 
    - No pense que me engana com essa fala mansa, Damian.  E j lhe disse para no me chamar de Gaby! 
    Ele endureceu o queixo. Inclinando-se por sobre a moa outra vez, fechou a porta e ps o carro em movimento. 
     - Um momento! - protestou Gabriella. - No vou com voc estacionar carro. No vou andar toda esta distncia em cho de cascalho de salto alto... - Estranhou 
ao v-Io percorrer a entrada circular e rumar de volta  estrada...  Damian? O que est fazendo? 
    - O que lhe parece? - replicou ele, os olhos fixos na estrada. - Voltando para Nova York. 
    - Agora? Mas j  muito tarde. E as minhas coisas que esto na pousada? Minhas roupas e maquilagem? Damian, isto  ridculo! 
    - Assim que a deixar em casa, vou telefonar para a pousada e pedir a eles que recolham e despachem tudo. 
    Gabriella voltou-se para ele. 
    - Deixar-me em casa? Como assim? Nunca passo o fim de semana no meu apartamento e voc sabe disso. 
    - Voc tinha razo no que disse h pouco: devo-lhe uma satisfao. - Damian encarou-a por um instante, ento, concentrou-se na estrada. - E vou ser franco. Adorei 
esse tempo que passamos juntos, mas... 
    - Mas o qu? Est me dando o fora? 
    - Gabriella, acalme-se. 
    - No me pea para ficar calma! - gritou a moa, estridente. - Oua bem, sr. Skouras, pode fazer gato e sapato das pessoas que trabalham para voc, mas eu no 
vou admitir isso! 
    - Seria bom que encerrssemos isto como adultos civilizados. Ambos sabamos que nosso relacionamento no duraria para sempre. 
    - Pois mudei de idia! Como se atreve a me pr de lado, agora que encontrou uma... 
    - No encontrei nada - cortou ele, duro e frio. - S estou dizendo que nossa relao j deu o que tinha que dar. 
    - Isso  o que voc pensa! J eu acho que voc me induziu a nutrir certas expectativas. Meu advogado disse que... 
    Gabriella calou-se sem concluir, mas j era tarde demais. Damian estacionou no acostamento e voltou-se para ela ameaador. Ela se encolheu no banco ante a expresso 
dele. 
    - Est me dizendo que j exps nosso relacionamento a um advogado? 
    - No... Quero dizer, s trocamos algumas idias... Damian, eu s estava pensando em me proteger. - Os faris de um carro vindo da direo contrria revelou 
suas feies de repente duras. - E parece que fiz bem! A est voc, tentando se livrar de mim sem nada mais que algumas palavras gentis. 
    Damian virou-se para a frente e ligou o rdio no volume mximo, e afogando a voz de Gabriella. De volta  estrada, pisou fundo no acelerador. 
    Menos de trs horas depois, chegavam a Manhattan. Com o trnsito livre quela hora da madrugada, em poucos minutos Damian estacionava diante do edifcio em que 
Gabriella morava. 
    A moa saltou sem a menor elegncia e inclinou-se para encaar-Io uma ltima vez.  
    - Voc me paga! - sibilou, rancorosa. 
    Impassvel, Damian arrancou, deixando a mulher numa nuvem de fumaa. Ela que esperneasse o quanto quisesse. No que se referia a ele, ela j pertencia ao passado. 
    
    
    CAPTULO TRS
    
    Jean Kaplan era a assistente particular de Damian Skouras havia muito tempo. 
    J na meia-idade, a sra. Kaplan tinha um casamento feliz e dedicava-se ao trabalho. Era tambm inabalvel. Nada a perturbava. 
    Se bem que no pde disfarar a surpresa quando o patro, ao chegar na segunda-feira pela manh, pediu-lhe que fosse comprar revistas de moda na banca da esquina. 
    - Revistas de moda, sr. Skouras? 
    - Sim, sra, Kaplan -confirmou Damian, srio. - Tenho certeza de que conhece a maioria delas. 
    A assistente aquiesceu. 
    - Sim, senhor. 
    "Bem, o patro nunca fora mesmo um empresrio convencional", raciocinou a sra. Kaplan, no elevador. O dirigente daquilo que a imprensa chamava de Imprio Skouras 
no precisava se preocupar com detalhes como esse. 
    Talvez ele estivesse pensando em comprar uma publicao. Ou duas. Ou trs. De volta ao dcimo terceiro andar do edifcio, colocou as revistas de moda ordenadamente 
sobre a escrivaninha de carvalho da presidncia-executiva. 
    - Aqui esto, sr. Skouras. Espero que fique satisfeito com o que encontrei. 
    Damian aprovou. 
    - Est timo. 
    - Devo enviar rosas para a srta. Boldini, como de hbito? 
    Damian lanou-lhe um olhar glido ao esclarecer: 
    - No  necessrio. 
    - Oh, desculpe-me, senhor. S pensei que... 
    - Alis, se a srta. Boldini telefonar, diga-lhe que no estou. 
    - Sim, senhor. Isso  tudo? 
    -  s. Suspenda todas as ligaes at segunda ordem, por favor. 
    A assistente aquiesceu e saiu fechando a porta. 
    Dispondo as revistas lado a lado, Damian espantou-se com as chamadas nas capas: "Voc  Sexy o Bastante para Manter o Interesse Dele?", "Dez Maneiras de Excit-Io", 
"Estilos Sexuais para o Vero", "Bronzeado Perfeito J!", e assim por diante. 
    Existia de fato um mercado para aquelas baboseiras? Vira Gabriella folheando publicaes semelhantes muitas vezes, mas nunca se interessara pelas frases nas 
capas. 
    Nem pelas modelos que as enfeitavam. Por que a maioria delas dava a impresso de estar sem comer havia semanas? No era possvel que algum homem se por mulheres 
assim, com os ossos quase protuberando atravs da pele! 
    Sem falar nas caras e bocas. Analisou detidamente o rosto macilento, coberto de maquiagem, que se destacava numa das pginas. Era aquele o padro de beleza vigente? 
    Recomeou a folhear, ansioso. No encontrava a fotografia de Laurel. No que isso tivesse importncia. No queria ver a foto. Mandara a assistente comprar revistas 
de moda s por capricho. 
    Ora, a quem tentava enganar? 
    Dormira muito mal aquela noite, despertando ao amanhecer atormentado pelas imagens de um sonho fragmentado, o corpo febril e latejante de desejo ... 
    E l estava. A fotografia de Laurel Bennett. 
    Gabriella exagerara. Laurel no estava totalmente nua, fato que o encheu de alvio. 
    De costas para a cmera, ela olhava para trs por sobre o ombro. Uma comprida faixa de seda branca cobria-lhe frouxamente os quadris, deixando  mostra a base 
de sua espinha. A impressionante cabeleira avermelhada derramava-se -Ihe  sobre a pele cremosa como lnguas flamejantes. 
    Damian estudou a fotografia. Tratava-se de uma mulher, nada mais, nada menos. Bonita, sem dvida, e muito desejvel, mas no a ponto de justificar, os sonhos 
excitantes que lhe povoaram a noite, 
    Fechou a revista, colocou-a em cima das outras e levou a pilha toda para uma mesinha lateral. A assistente disporia das publicaes como bem entendesse. No 
estava mais interessado nelas, nem em Laurel Bennett. 
    Damian teve uma manh atarefada. 
    Havendo seus assessores detectado um problema numa pequena firma de investimentos recm-adquirida pela Skouras International, Damian encontrou a soluo aps 
uma estafante sesso de brain storming que durou vrias horas. A seguir, participou de uma teleconferncia com seus banqueiros em Paris e Hamburgo, fechando um negcio 
multimilionrio aps meses de impasse. 
    Ao meio-dia e vinte, pegou para ler as anotaes que a sra. Kaplan colocara no canto de sua mesa, preparando-se para o almoo de negcios a que compareceria 
 uma hora, mas no conseguia se concentrar, lendo e relendo as mesmas palavras e sentenas. 
    Por fim, desistiu e afastou a cadeira da mesa. 
    Inquieto, levantou-se e percorreu a sala espaosa. Seu olhar caiu sobre o aparador, sempre com caf fresco  disposio, e para a mesinha lateral sobre a qual 
depositara as revistas de moda. 
    A revista com a foto de Laurel estava no topo da pilha. Abriu-a de novo na pgina marcada e contemplou a foto. Os cabelos dela pareciam de seda. Seriam macios 
ao toque, ou duros por efeito do spray, como os de Gabriella? Que aroma exalaria a graciosa curva entre seu ombro e pescoo? Que gosto apresentaria? 
    Cus, o que se passava? Jamais sentiria o aroma daquela mulher, ou o gosto. 
    Analisou-lhe a expresso. A frieza em seus olhos contrastava com a boca macia, sensual, vulnervel. Assim a sentira ao beij-Ia, ambos entregues  paixo, e 
ao beijo. 
    Ainda se perturbava ao recordar o calor e a tenso que haviam tomado conta de seu corpo. Jamais se deixara envolver tanto por um beijo ou pela lembrana daquilo 
que no passara de um simples encontro. 
    Mas envolvera-se, e descontrolara-se. 
    Damian endureceu o queixo. Era ridculo. Nunca se descontrolava. Aquilo no passava de uma coceirinha e, para alivia-Ia, bastaria uma noite com Laurel. 
    Telefonaria convidando-a para tomar um drinque ou jantar fora. 
    Ela correspondera ao beijo, portanto, devia desej-Io tanto quanto ele a desejava. Teimosa como era, porm, talvez o rejeitasse... 
    S agora reparava no artigo promovido por aquela foto publicitria. No se tratava de perfume, nem de cosmticos, mas de microcomputadores portteis. E o anunciante 
era justamente uma empresa que a Skouras International comprara uns dois meses antes. 
    Pegou o telefone. 
    Estava com sorte. Dez minutos depois, tendo cancelado o almoo de negcios, pegava o carro e embrenhava-se no trnsito rumo a um estdio no Soho onde fotografavam 
para a prxima srie de anncios. 
    
    - Laurel, esse no  um bom ngulo - observou o fotgrafo Haskell. - Vire o rosto para a direita, por favor. 
    Ela obedeceu. 
    - Agora, incline-se na minha direo. Isso! 
    Laurel estava amuada. Aquele trabalho no a agradava. Por que tudo, de creme dental a barcos, tinha de ser anunciado com sexo? 
    - S mais um pouquinho - pediu o fotgrafo. - Perfeito.  Pode dar um sorriso, por favor? 
    Ela no conseguia sorrir. Estava de muito mau humor. 
    - Laurel, voc tem que entrar no esprito da campanha. Est com expresso fechada,entediada. 
    Na verdade, estava zangada. "No pense mais nisso!", repreendeu-se. "Nem naquele homem". 
    - Ah, Laurel, agora est franzindo o cenho! Isso d rugas, sabia? Relaxe e pense na cena: voc est no convs de um iate particular, no mar... Egeu! 
    - No mar do Caribe! - corrigiu ela. 
    - Que diferena faz? Tem algo contra os gregos? Mas que seja o Caribe! L est voc, num barco junto  costa de Madagascar. 
    - Madagascar fica na frica. 
    - Ai, precisa ser to exigente? Esquea a geografia, est bem?  Voc est num iate, no mar de sua preferncia, tomando sol e usando seu microcomputador porttil 
para escrever cartes-postais a todos os seus amigos. 
    - Isso  ridculo, Haskell! No  para isso que serve o microcomputador! 
    O fotgrafo perdeu a pacincia. 
    - Francamente, Laurel, no estou nem um pouco interessado no uso que se faz dele!, Voc bem poderia estar escrevendo suas memrias, ou contabilizando os milhes 
em sua conta bancria na Sua. Quero apenas que use a imaginao e d um belo sorriso para a cmera. 
    Laurel suspirou. O colega tinha razo. Era modelo profissional e aquele era seu trabalho. Infelizmente, dormira mal e acordara de mau humor. Para completar, 
sentia-se tola posando de biquni contra um cenrio de fundo simulando cu e mar. O que biqunis, cu e mar tinham a ver com vender microcomputadores portteis? 
    - Laurel, l vem voc de novo fechando a expresso! Concentre-se, querida. Pense em algo agradvel e o mantenha em mente. O restaurante em que vai jantar esta 
noite, por exemplo. O lugar em que passou o fim de semana. Sei que hoje  segunda-feira, mas deve haver algo bom em que voc possa pensar... 
    Onde jantaria  noite? Laurel teve vontade de rir. No balco da cozinha, e o menu seria queijo fresco e salada verde. A seguir, acompanhando o cafezinho, um 
bom romance de mistrio. 
    Quanto ao final de semana, era a ltima coisa de que queria se lembrar! Fora humilhada por Damian Skouras. 
    - Laurel, voc est piorando em vez de melhorar! Vamos l, garota, pense em algo maravilhoso! 
    Algo maravilhoso? Dar um soco no queixo de Damian Skouras! 
    - timo! - aprovou o fotgrafo. 
    E uma joelhada no lugar certo! 
    - Excelente! - O fotgrafo batia chapas ininterruptamente, deslocando-se com agilidade em busca de novos ngulos. - Agarre-se a essa imagem, porque est dando 
resultado! 
    Uma cotovelada no abdmen! 
    - Muito bem, Laura,  esse o esprito! Graas ao microcomputador porttil, voc pode passar o dia ao sol, em vez de trancada no escritrio, e daqui a dois minutos 
vai descer  cabine e atirar-se nos braos de um bonito! Conhece um bonito, no conhece? 
    Damian Skouras. 
    Laurel enrijeceu-se. Pronunciara em voz alta? No, Haskell continuava deslizando a sua frente, acionando a cmera sem parar. 
    Sim, Damian Skouras era bonito, com aquele corpo msculo e rosto de belos traos, ainda que frios, como que esculpidos em granito. Os olhos exibiam, um tom 
raro de azul e a boca bem poderia pertencer a uma esttua de mrmore, no houvesse se revelado quente, macia e excitante ao tomar a sua. 
    - Isso mesmo! - O filme acabou e o fotgrafo colocou a cmera sobre a mesa. - Laurel, voc foi grande. Sua expresso estava... simplesmente brbara! 
    Laurel pousou o microcomputador porttil no cho, levantou-se e vestiu o roupo que deixara numa cadeira. 
    - Acabamos? 
    - Acabamos, graas  imagem que surgiu em sua mente, seja qual for! - Haskell riu. - No vai me contar quem  ele? 
    Laurel deu um sorriso enigmtico. 
    - No pensei em ningum. Apenas imaginei meu jantar desta noite. 
    - Ah, um bife no provocaria tal expresso numa mulher - replicou o fotgrafo, perspicaz. - Quem  o sortudo, e por que no sou eu? 
    - Talvez a srta. Bennett esteja dizendo a verdade - declarou uma terceira voz, masculina.  
    Laurel voltou-se. Banhada pela luz dos holofotes, no distinguia nada nos cantos obscuros do estdio. 
    - AfInal, j passou muito da hora do almoo - completou o recm -chegado. 
    Laurel sentiu o corao se descompassar. No, no podia ser ele... 
    Damian Skouras saiu das sombras como se emergisse de um nevoeiro. 
    - Ol, srta. Bennett... 
    Por alguns segundos, Laurel, ficou sem reao diante do homem a quem esperara jamais rever. Ento, apertou o roupo fechado junto ao corpo. 
    - Isso no teve graa, sr Skouras. 
    -  timo ouvir isso, srta. Bennett, considerando que a comdia no  o meu forte. 
    O fotgrafo Haskell parecia contrariado. 
    - Laurel, voc conhece esse sujeito? Quero dizer, combinou encontrar-se com ele aqui?  
    - No, eu no conheo este senhor - declarou ela, glida. Damian sorriu malvolo. 
    -  claro que ela me conhece. Chamou-me pelo nome, no ouviu? 
    - No conheo este senhor e com certeza no combinei encontrar-me com ele aqui - teimou Laurel. 
    O fotgrafo avanou um passo na direo de Damian. 
    - Ouviu a moa, companheiro. Isto aqui no  um local pblico. Se quiser contratar meus servios, fale com meu agente. 
    Damian no se intimidou. 
    - Tenho todo o direito de estar aqui. Sou o dono da Redwood Computers e desta campanha publicitria, portanto. Pode telefonar para a agncia e confirmar. 
    O fotgrafo espantou-se. 
    - Voc  aquele Skouras?!  Laurel mostrava-se ctica. 
    - No seja bobo, Haskell. O fato de ele se apresentar como dono da Redwood no significa que seja verdade. 
    - Ele , sim - murmurou Haskell. - Li no jornal. Ele comprou a empresa. 
    Laurel ergueu o queixo. 
    - Que seja, sr. Skouras. Isso no lhe d o direito de invadir este estdio como se lhe pertencesse, tambm. 
    Damian sorriu apaziguador. 
    - Peo desculpas a ambos.  que soube que haveria uma sesso de fotos para a minha campanha aqui hoje e resolvi passar para ver. 
    Laurel olhou-o com desprezo. 
    - Acontece que a sesso j acabou. Se no se importa... Damian segurou-a pelo brao quando ela tentou passar por ele. - Que tal almoarmos? 
    - No. 
    - Ora, vamos, srta. Bennett. Est um lindo dia l fora. 
    - Estava, at que o senhor apareceu. 
    O fotgrafo pigarreou. 
    - Bem, se me do licena, tenho outro compromisso. Laurel afligiu-se. 
    - Haskell, espere... 
    Mas ele se foi,  e os dois ficaram sozinhos no estdio. 
    - Por que tem que tornar tudo to difcil? - questionou Damian. 
    - No estou, tornando nada difcil. - Laurel olhou para o pulso, que ele ainda segurava com firmeza. - Solte-me, por favor. 
    Damian tambm pareceu espantar-se com a prpria atitude. 
    Desde que conhecera aquela mulher, mal se reconhecia. Havia muito no se valia da fora fsica para nada, desde que trocara os trabalhos temporrios no Brooklyn 
por um apartamento de cobertura na Park A venue. 
    No era homem de perseguir uma mulher obsessivamente, tammpouco. Por que o faria, tendo  disposio tantas beldades dispuutando sua ateno? 
    Eis o que lhe aguava o interesse por Laurel Bennett. Ela demonstrava, ou fingia, desinteresse por ele, mas no o enganava, havendo correspondido to febrilmente 
a seu beijo. De qualquer forma, a cura era a mesma. Uma noite na cama com ele. Aps satisfazer a mais primitiva das necessidades, esqueceria aquela mulher de uma 
vez por todas. 
    Mas era preciso manter-se civilizado. 
    Damian soltou o pulso de Laurel e respirou fundo. 
    - Srta. Bennett... Laurel, sei que comeamos mal, mas... 
    - Errado. No comeamos absolutamente nada. O senhor continua com seu joguinho de gato e rato, mas, no que se refere a mim, nem sequer nos conhecemos. 
    - Bem, podemos dar um jeito nisso. Vamos jantar juntos esta noite.  
    - J tenho um compromisso. 
    - Amanh, ento. 
    - Tambm j tenho compromisso. Alis, estou com, todas as noites comprometidas, at o fim da vida. - Ante o riso de Damian, Laurel indignou-se: - Eu disse algo 
engraado, sr. Skouras? 
    - Damian. Eu s estava imaginando qual, de ns dois est fingindo o qu. 
    Ela ficou rubra de raiva. 
    - Mas o senhor s pode ter um ego gigantesco mesmo! Acha que estou participando do seu jogo? Que estou me fazendo de difcil? 
    Ele recostou-se na mesa de trabalho do fotgrafo, o palet aberto e as mos nos bolsos da cala. 
    - Eu acho. 
    - Escute aqui, sr. Skouras... 
    - Damian. 
    - Sr Skouras. - Laurel estreitou o olhar. - Vou ser bem simples e direta, de modo que compreenda: primeiro, no gosto do senhor. Segundo, no gosto do senhor. 
E, terceiro, no quero almoar, nem jantar, com o senhor. 
    - J tem pretendentes demais? 
    Laurel cogitou apagar aquele sorriso arrogante do rosto dele com um tapa sonoro. 
    - Isso mesmo. Eu os encaixo no caf da manh, no almoo, no jantar e at no ch das cinco. Como v,  impossvel encaixar o senhor tambm em minha agenda. 
    Damian divertia-se abertamente agora, os olhos azuis cintilantes, e Laurel quis golpe-lo bem no meio do peito... 
    Alm de atirar os braos em torno de seu pescoo e beij-lo at que ele a erguesse nos braos e levasse para um canto escuro do estdio... 
    Seus olhos  se encontraram. Ele sabia no que ela estava pensando. 
    - Laurel? 
    Ela o fitou muito sria por alguns instantes. 
    - No. 
    Com isso, deu-lhe as costas e correu para o vestirio, com medo no de Damian, mas de si mesma. Recostada contra a porta fechada, sentia o corao pular no peito. 
    
    No estdio, Damian olhava fixamente para a porta cerrada do vestirio, sentindo o corpo todo rgido, o sangue percorrendo febrilmente as artrias. 
    Provocara Laurel ao ponto de enfurec-Ia, mas ento, de repente, tudo mudara. Foi como se ela descobrisse algo, chocada, e se acautelasse. A expresso em seu 
belo rosto a denunciara, e ele compreendera de imediato. 
    Ela fugira no dele, mas de si mesma. A ele, bastaria abrir aquela porta e tom-Ia nos braos. Um toque, e ela se desmancharia toda. 
    Ele a possuiria e se veria livre daquela insanidade. 
    Inspirou ofegante. Laurel Bennett era uma mulher interessante, e no s devido ao fogo que crepitava por trs de seu comportamento frio. Outros detalhes intrigavam-no, 
fascinavam-no, a exemplo de sua participao naquilo que se tornava um jogo complexo, alm de sua determinao em negar a atrao bvia que os atormentava. Ela era 
um enigma. Um desafio. 
    Havia muito no encarava desafios. Era o preo que pagava pelo sucesso. 
    De repente, a idia de ter apenas uma noite de paixo com Laurel Bennett no lhe parecia satisfatria. Gostaria de divertir-se com ela por mais tempo. E tinha 
a impresso de que ela  no quereria nem pediria mais nada, como a interesseira Gabriella. 
    As feministas talvez o crucificassem como chauvinista, mas na verdade apenas fazia uma avaliao inteligente de uma mulher. Laurel Bennett era sofisticada, liberada, 
j tivera muitos amantes. Um caso breve e intenso satisfaria a ambos. 
    Estava decidido, ento. Teria Laurel Bennett, mas no apenas uma vez, num canto escuro qualquer. 
    Passou a mo nos cabelos, endireitou a gravata e saiu  rua. 
    
    Com amplos cmodos arejados e ensolarados, o apartamento de Laurel ocupava todo o andar superior de um belo sobrado muito bem localizado, no alto da zona leste 
de Manhattan. 
    Por tratar-se de construo antiga, porm, o encanamento s vezes apresentava problemas e os inquilinos tinham de se apressar a resolv-Ios, pois se fossem esperar 
que o proprietrio, to velho quanto a casa, tomasse providncias... 
    Por sorte, Laurel podia contar com a ajuda do vizinho Grey Morgan, o gal de telenovelas que antes da fama fora aprendiz de encanador no Brooklyn, de cuja esposa, 
a bailarina Susie, tornara-se amiga. 
    - Desculpe-me por estar demorando - pediu Grey, dentro da banheira de Laurel, girando uma chave inglesa em torno de um registro. - Acho que agora descobri o 
que . 
    - Ora, eu  que tenho de agradecer por voc estar se dando ao trabalho - replicou Laurel, acomodada sobre o assento baixado do vaso sanitrio, com uma braada 
de ferramentas no colo. 
    O ator lanou para trs os cabelos loiros e sorriu-lhe. 
    - Susie no permitiria que fosse de outro modo - comentou. - Ela acha que devo executar estas tarefas para me manter humilde. 
    - Sbia Susie! - apoiou Laurel. 
    No que Grey fosse arrogante. Ao contrrio, era muito camarada. O sucesso no lhe subira  cabea, conforme acontecia com alguns homens. Um pouco de fama e fortuna 
e no que se transformavam?  
    Em indivduos como Damian Skouras. Ou Kirk Soames. Bolas, por que s atraa aqueles tipos fteis e egostas? 
    Evidentemente, nem sempre fora to perspicaz. Tendo conquistado sozinha seu espao no mundo, logo descobrira que muitos homens intimidavam-se com sua fama, com 
sua independncia e at com sua beleza. Como poderia no ter-se impressionado com a segurana demonstrada pelo poderoso, rico e bonito Kirk? Quando ele a convidou 
para morarem juntos, j estava totalmente apaixonada. 
    A irm Annie logo a advertira: 
    - Morar juntos?! Por que ele no a pede em casamento? 
    - Por cautela - justificara, em defesa do amante. - Ele considera o casamento um passo muito srio. 
    - Claro que  - concordara Annie. - Mas se ele a ama e voc o ama... 
    - Annie, tenho trinta e dois anos e posso muito bem ir morar com um homem sem que o mundo se acabe por causa disso. No quero me precipitar, tampouco. 
    Annie no se deixara enganar. Sabia que ela teria se casado num estalar de dedos, se o amante houvesse proposto. 
    Certa de que Kirk a pediria em casamento, no devido tempo, mudara-se para a manso dele em Long Island, a cinqenta quiilmetros de Manhattan. Ele insistira 
em que ela mantivesse o apartamento, para usar como pousada sempre que fosse  cidade para sesses de fotos e desfiles, oferecendo-se at para pagar o aluguel, o 
que ela recusara. 
    - Como explica que um milionrio como ele no tenha um apartamento na cidade? - questionara Annie, implacvel. 
    - Ele prefere a paz e quietude da casa em Long Island explicara, no muito convicta. 
    Ficara sabendo, por acaso, que Kirk tinha um apartamento em Manhattan, quando o sndico do prdio telefonara perguntando qual dia, o sr. Soames achava mais conveniente 
para se executar uma pequena reforma no terrao. 
    Confusa, crente em que tratava-se de algum mal-entendido ou de uma surpresa de Kirk para ela, fora at o endereo fornecido e convencera o porteiro a deix-Ia 
entrar sem anunci-Ia. No vigsimo andar, respirara fundo antes de tocar a campainha. 
    O prprio Kirk abrira a porta, de roupo branco, espantando-se ao v-Ia. 
    - O que est fazendo aqui, Laurel? 
    Antes que ela pudesse responder, uma voz feminina o chamou l do fundo: 
    - Kirk, quem est a, amor? 
    E surgiu uma loira de roupo creme, corada aps uma longa tarde de amor, 
    Laurel no dissera uma palavra. Nem sequer voltara a Long Island para pegar seus pertences. Somente meses depois, superada a dor da traio, conseguira analisar 
o caso com frieza, imaginando como pudera sentir-se atrada por um homem como Kirk Soames, para comear. 
    Considerara-o seguro quando na verdade era arrogante, determinado quando era de fato um egosta. Ela, que sempre se orgulhara de seu autocontrole, deixara-se 
envolver pela atrao fsica, e nem sob esse aspecto o relacionamento fora satisfatrio. Nunca sucumbira  paixo nos braos de Kirk. 
    J o beijo de Damian provocara-lhe paixo. Na forma de um fogo devastador, enchera-a de um desejo to doce que ameaara destru-la. 
    Mas Damian Skouras no era o homem certo, tampouco. Tratava-se de uma cpia de Kirk, to bem acompanhado de loiras como ele!
    - Pode me passar a chave de fenda, Laurel? - pediu Grey, completando o reparo. - No a Phillips. Essa outra... 
    Laurel bateu a ferramenta com fora na mo do gal-encanador. 
    - Oh, Grey, me desculpe - pediu, perturbada. - Foi sem querer. 
    O vizinho sorriu. 
    - Tudo bem. - Devolveu-lhe a ferramenta e ps um p fora da banheira. - Vamos testar? 
    - Cuidado com essa poa de gua... 
    Tarde demais: Grey escorregou na banheira molhada e agarrou-se ao apoio mais prximo, o registro do chuveiro. A gua gelada jorrou forte para todos os lados, 
ensopando a ambos num instante. 
    - Droga! - exclamou Grey, esquivando-se do jato. - Bem, pelo menos est funcionando. 
    Laurel ria, enxugando o rosto com uma toalha. 
    - Susie vai pensar que tentei afogar voc! 
    O vizinho saiu da banheira, ao mesmo tempo que despia a camiseta molhada por sobre a cabea. Quase escorregou de novo ao pisar nos ladrilhos antigos. 
    - Seria bom um encanador profissional dar uma olhada nessa vlvula - avisou. - Talvez tenha de substitu-Ia por uma nova. 
    - Vou falar com o velho Grissom amanh logo cedo - retrucou Laurel, referindo-se ao dono da casa. -Lamento que tenha se molhado. 
    - No foi nada. - Grey apoiou o brao nos ombros ele Laurel e ambos seguiram pelo corredor at a porta. J no corredor, sugeriu: -  como se tivssemos participado 
daquela campanha: 
    "Poupe gua, tome banho com um amigo"... 
    Uma fria voz masculina retrucou: 
    - Louvvel. 
    Era Damian Skouras, de terno escuro, camisa branca, gravata de seda vermelha e expresso muito sria. 
    Laurel engoliu em seco. Estivera tentando se enganar. Aquele homem no era cpia de nenhum outro. Kirk era atraente, mas Damian era lindo de morrer. 
    Mas no fora convidado. E no era bem-vindo. Desencostando-se do batente, enfrentou-o com igual seriedade. 
    - O que faz aqui? 
    Damian ignorou a pergunta. Estava ocupado demais tentando adivinhar o que se passava ali, entre Laurel e aquele sujeito. 
    Ela estava de camiseta molhada, colada ao corpo como uma segunda pele, os seios bem delineados e protuberantes. De seu short jeans gotejava gua, bem como de 
seus cabelos. Para completar, estava descala e seu rosto brilhava, livre de maquiagem. 
    Estava mais linda do que nunca. 
    Damian concentrou-se ento no homem ao lado dela, ou melhor, meio  frente agora, como se disposto a defend-Ia a qualquer custo. Sem camisa, ele exibia msculos 
bem exercitados e as mulheres deviam achar seu rosto bonito. A cala jeans molhada grudava-se a seus quadris, destacando-lhe a parte viril do corpo. 
    Era como se Laurel e aquele aspirante a gal acabassem de chegar debaixo de chuva. 
    S que no chovia havia dias. 
    ''Poupe gua, tome banho com um amigo", dissera o sujeito, brincando. Ora, casais no tomavam banho vestidos, nem saam da cama com as roupas molhadas, mas tais 
concluses lgicas no o tranqilizavam. 
    Aparecer de surpresa parecera-lhe uma grande idia, Para conquistar uma mulher como Laurel, nada como uma limusine  espera com champanhe gelada no bar embutido 
e rosas vermelhas de cabo longo em vaso de cristal, pronta para lev-Ios  mesa reservada de um novo restaurante com uma vista espetacular da cidade. 
    Ao procurar o endereo dela na lista telefnica, no lhe ocorrera que ela podia no morar sozinha. 
    - Conhece esse homem, Laurel? - indagou Grey. 
    -  claro que ela me conhece! - replicou Damian, rspido. 
    Meio relutante, Laurel confirmou:  
    - Conheo, mas no o convidei. Grey cruzou os braos. 
    - Ela o conhece, mas no o convidou. Damian sorriu pacfico. 
    - Eu entendi o que ela disse, senhor... 
    - Morgan. Grey Morgan. 
    Laurel resolveu encurtar a cena: 
    - Nesse caso, vai entender minha prxima frase: V embora. 
    - V embora - repetiu Grey, hostil. 
    Apreciando os msculos do antagonista, Damian desejou exercitar-se tambm. Em sua rotina de executivo, priorizava o intelecto, esquecendo-se do lado fsico. 
    Laurel quase sentia o cheiro de testosterona no ar. Sem camisa, de cala jeans apertada, o vizinho era todo msculos, enquanto Damian mostrava-se o eptome da 
urbanidade em seu caro terno escuro, mas no tinha dvida de quem sairia vencedor, caso a disputa descesse quele nvel primitivo. 
    O arrogante e egosta Damian Skouras estava acostumado a ter o mundo a seus ps, mas agora mais parecia uma cobra, pronto para revidar qualquer ataque. Cus, 
como se livraria dele? 
    - Laurel o mandou ir embora - reiterou Grey, impaciente. 
    - Voc  quem? - desafiou Damian. - O tradutor dela'? 
    - Escute aqui, companheiro, Laurel e eu somos... 
    - Somos muito ntimos - completou Laurel, enganchando o brao no do vizinho, que a olhou confuso. - No  mesmo, querido; Grey levou s um segundo para entender 
e continuar:  
    - Sim, somos muito ntimos. 
    Damian ergueu as sobrancelhas. Talvez precisasse mesmo de um tradutor. Acontecia algo significativo ali, mas no conseguia determinar o qu. A sensao era a 
mesma que experimentava em reunies de negcios em Tquio. Todos falavam um pouco, de ingls, ele mesmo sabia um pouco de japons, mas s vezes uma palavra ou frase 
parecia no fazer sentido. 
    Laurel o encarava vitoriosa.  
    - Sendo assim, sr. Skouras, se no se importa, gostaramos... 
    - George? - chamou uma voz feminina, subindo pela escadaria. - Est a, querido? - Uma bela morena juntou-se a eles. - Oi, Laurel, ainda est precisando do meu 
marido? 
    Damian ergueu as sobrancelhas de novo, olhando para Laurel. 
    Ela enrubesceu e soltou o brao do vizinho. 
    - Oi, Suze. No, no estou mais precisando dele. 
    - timo! - retrucou a amiga. - Ele fez um bom trabalho? 
    Laurel ficou ainda mais vermelha. 
    - Muito bom. 
    A morena sorriu para o marido. 
    - Viu, George? Se sua popularidade for por gua abaixo, voc pode voltar a desentupir privadas. 
    Laurel engoliu em seco e esclareceu: 
    - Ele consertou o meu chuveiro. Damian permanecia impassvel. 
    - Entendo. 
    O vizinho comeou a explicar a situao  esposa: 
    - Suze, Laurel est com um probleminha aqui. 
    - No, est tudo bem - cortou Laurel, pensando em liberar o casal amigo. - O sr. Skouras j estava de sada, no  mesmo? - Sim, estava - confirmou Damian. 
    - Como vem...  
    - Assim que voc trocar de roupa - interps Damian. Cruzando os braos, apreciou-a dos ps  cabea. - Essa que est usando  interessante, mas seria bom ao 
menos calar sapatos, pois nunca se sabe o que pode haver nas ruas de Nova York. 
    Estupefata, Laurel ergueu o queixo, protestando: 
    - No pretendo ir a lugar algum com o senhor! 
    - Mas reservei nossa mesa para as oito - replicou Damian, fazendo-se de desentendido. 
    Laurel mostrou-se confusa. 
    - Mas para qu? 
    - Para jantarmos. - Damian olhou para Susie e viu que tinha uma aliada. - Eu devia estar ofendido por ela ter-se esquecido do nosso compromisso, mas sei que 
teve um dia cheio posando para a campanha da Redwood. 
    Grey arregalou os olhos. 
    - Fala da Redwood dos microcomputadores portteis?  Damian deu de ombros, modesto. 
    - Essa mesmo. Acabo de compr-Ia e estou muito contente por ter Laurel na campanha publicitria. 
    Susie estava boquiaberta, 
    - Claro! Skouras. Damian Skouras. Vi sua foto numa revista... Grey estendeu a mo. 
    - Muito prazer, sr. Skouras! Minha esposa e eu acabamos de comprar um lote de suas aes. 
    Damian apertou a mo do gal de novelas. 
    -  mesmo? Fico satisfeito em saber. 
    "No acredito", lamentou-se Laurel. Seria uma conspirao? Primeiro, a irm Annie e a sobrinha Dawn, agora, Grey e Susie... - Mas que sorte a de Laurel, ser 
escolhida para anunciar o seu produto! - comentou a vizinha, insinuante. 
    - No foi bem assim... - protestou Laurel. 
    - A agncia de publicidade a escolheu - cortou Damian. - Com a minha aprovao,  claro. 
    - Lgico - concordou Susie. 
    - Imagine minha surpresa quando nos encontramos no casamento de meu sobrinho, ontem - prosseguiu ele, enredando Laurel cada vez mais. - Foram horas agradabilssimas, 
no foram, Laurel? E combinamos jantar juntos esta noite. Para tratar de negcios  claro.
    - Claro - colaborava Susie, olhando para Damian e Laurel como se fossem um pacote completo. 
    Laurel conteve o impulso de agarrar a amiga pelo pescoo. 
    - No gostariam de juntar-se a ns? - convidou Damian.  H espao para todos na limusine. 
    - Na limusine?! - Susie conseguiu conter-se. - No, vocs no precisam de um casal casado como ns para segurar vela. 
    Laurel emitia fascas pelos olhos. 
    - Susie; no  nada do que est pensando... 
    - Eu sei, vo tratar de negcios - completou a vizinha. No foi o que disse, Damian? 
    A cobra chamada Damian sorriu. 
    - Exatamente. 
    - Mas ainda vamos jantar juntos, quem sabe em nosso apartamento - declarou Susie. - Conheo uma receita de estrogonofe... o que me faz lembrar, Grey, se no 
formos logo, nosso jantar vai se queimar... 
    O vizinho olhou uma ltima vez para Laurel. 
    - Tudo em ordem, ento? 
    Ela moveu o queixo duro. De que adiantaria arrastar espectadores inocentes para a linha de fogo? Tratava-se de uma guerra particular, entre ela e Damian. 
    - Tudo em ordem, Grey - afirmou, dispensando-o. - Obrigada por consertar o chuveiro. 
    - Sempre que precisar,  s chamar. - O rapaz estendeu a mo a Damian. - Foi um prazer conhec-lo. 
    - Igualmente - respondeu Damian, corts. 
    Susie no resistiu  tentao de sussurrar a Laurel atrs das costas largas do marido: 
    - E no me contou nada, hein! Ele  lindo de morrer!
     Damian Skouras era um rato, pensou Laurel, mas mordeu a lngua. 
    
    O restaurante escolhido por Damian era soberbo: Apresentava iluminao suave, mesas bem distanciadas umas das outras e uma vista magnfica. O servio era impecvel, 
a carta de vinhos, impressionante, e todas as sugestes no menu pareciam deliciosas: 
    Mas Laurel ainda no provara nada. 
    Ao v-Ia ignorar o menu, Damian simplesmente pedira para ambos. Caviar Beluga, salada verde, pato assado coberto com cerejas Montmorency e conhaque e, para um 
grand finale, sufl de chocolate decorado com um creme de leite que parecia leve como o ar. 
    Nem o garom, nem Damian notavam a greve de fome de Laurel. O primeiro servia e recolhia os pratos, o segundo saboreava as iguarias fazendo comentrios agradveis 
aos quais ela no respondia. 
    - Caf? - indagou Damian, enquanto se deliciava com a sobremesa. - Ou prefere ch? 
    Ate prisioneiros em greve de fome tomavam lquidos. Laurel encarou seu algoz por sobre a mesa. 
    - O que vai tomar? 
    - Caf puro, bem forte. 
    Era exatamente o que ela costumava tomar aps as refeies. 
    Suspirou. 
    - Nesse caso, vou querer ch. 
    Damian riu, e o garom foi buscar as bebidas quentes. 
    - H algo que eu possa fazer para que voc se sinta menos inclinada a me insultar? 
    - Voc faria, se houvesse? 
    - Por que tenho a sensao de que sua resposta seria letal? 
    Laurel adotou uma expresso malvola. 
    - Acertou em cheio! 
    Damian suspirou e balanou a cabea, mas seus olhos cintilaavam de divertimento. 
    - Damas no devem se expressar assim. 
    - Uma vez que voc no  um cavalheiro, por que eu me expressaria como uma dama? Como se no bastasse toda a diverso que lhe proporcionei hoje, primeiro com 
Haskell, depois com Grey e Susie e, agora, bancando a boba da corte enquanto o rei janta. 
    Damian esperou que o garom servisse o ch e o caf e se fosse. 
    -  assIm que pensa? Que eu a trouxe aqui para me divertir! 
    - Voc gosta de ver as pessoas danando conforme a sua msica. 
    Damian ps de lado o prato de sobremesa e posicionou bem a sua frente o pires com a xcara de caf. 
    - No foi por isso que a convidei para jantar esta noite. . 
    - Convidar?! Coagir, voc quer dizer, 
    - Minha inteno era convid-Ia com toda a educao, Laurel, mas quando a vi com aquele l! de Grey, ele sem camisa... bem, tive de escolher entre pedir-lhe 
desculpas pelo ocorrido no estdio no incio da tarde e convid-Ia para jantar ... 
    - A resposta teria sido "no". 
    - E dar um soco no queixo daquele sujeito, coloc-Ia por sobre meu ombro e lev-Ia embora. 
    Laurel empalideceu de indignao. 
    - Isso... no teve graa nenhuma! 
    - Eu no quis fazer graa. - Damian tocou a mo dela na mesa. - Aconteceu algo entre ns ontem. 
    - No sei do que est... 
    Ele apertou os dedos em torno dos dela, impedindo-a de se libertar. 
    - No minta! No para mim. Nem para si mesma. - Seus olhos brilharam predatrios. - Sabe muito bem do que estou falando. Eu a beijei, e voc correspondeu. 
    Seus olhares se encontraram, e Laurel soube que de nada adiantaria mentir. Por sorte, aprendera alguns truques durante tantos anos diante das cmeras. 
    - E da? - questionou, friamente. - Voc me pegou de surpresa. O que mais deseja, Damian? Que eu admita que voc beija bem?  lgico que j sabe disso, ou ser 
que sua amiga loira no elogiou o bastante para satisfazer seu ego? 
    -  esse o problema? Gabriella? - Ele fez um gesto impaciente. - J terminei tudo com ela. 
    - Quer dizer que ela no gosta de ver o amante flertando com outra mulher? - Laurel conseguiu livrar a mo. - Ela no  to idiota quanto parece. 
    - Rompi com ela ontem  noite. Laurel ergueu a sobrancelha. 
    - S porque... 
    - Estava acabado h muito tempo, eu  que demorei a perceber. - Damian sorriu satisfeito. - No me ocorreu que voc sentiria cime. 
    - Cime?! De voc com aquela mulher? Seu ego no  grande,  gigantesco! Nunca vi coisa igual... 
    - Vamos nos conhecer melhor, ento. 
    - Para qu? No quero me envolver com voc. 
    - No estou pedindo voc em casamento - esclareceu ele, rspido. - Somos adultos. E aconteceu algo no instante em que nos vimos. 
    Laurel voltou os olhos para o teto. 
    - S falta voc dizer que nunca lhe aconteceu algo parecido na vida. 
    Laurel colocou o guardanapo sobre a mesa, pronta para ir embora. Estava farta das cantadas pretensiosas de Damian Skouras. 
    Ele a segurou pelo pulso. 
    - Laurel... 
    Ela o fitou no belo rosto msculo em que os ossos destacavam-se tensos. Seus olhos pareciam negros de to obscuros. 
    - Venha comigo para a cama. Vamos fazer amor at que nenhum de ns consiga pensar direito. 
    Laurel enrubesceu. 
    - Solte-me - murmurou. 
    - Sonhei com voc a noite passada - prosseguiu ele, ainda retendo-a. - No sonho, beijei sua boca macia at que ficasse inchada e acariciei seus seios com a lngua 
at que gemesse de prazer. E a penetrava bem fundo, enquanto voc gritava meu nome. 
    Com as pernas fracas, Laurel ouvia a prpria pulsao retumbando em seus ouvidos. 
    - Foi o que eu quis, o que ns dois quisemos, no instante em que nos vimos. Por que insiste em negar? 
    Aquelas palavras diretas, o calor nos olhos dele, a lembrana do que sentira em seus braos fortes, tudo contribua para que Laurel capitulasse. 
    Tudo o que Damian dizia era verdade. No podia mais negar. 
    No gostava dele. Ele representava tudo o que ela mais desprezava, no obstante, desejava-o, como nunca desejara nenhum homem, com uma intensidade que a aterrorizava. 
    Com a viso embaada, viu a si mesma deitada sob aquele corpo musculoso, correspondendo a cada beijo, envolvendo-o com as pernas e erguendo os quadris de encontro 
a suas investidas possessivas. 
    Desesperada, levantou-se e caminhou apressada  sada do restaurante, mas Damian alcanou-a pouco alm da porta, segurando-a com dedos que pareciam de ao. 
    - Diga que estou errado e farei com o que o chofer a deixe em casa. Nunca mais irei importun-Ia. 
    O tempo pareceu parar. Na clida noite primaveril, fitaram-se longamente, ofegantes, at que Laurel entregou-se aos braos de Damian com uma avidez que j no 
conseguia disfarar. 
    
    
    CAPTULO CINCO
    
    Estavam dentro da limusine, isolados do chofer e do mundo, percorrendo velozmente as ruas da cidade imersa na noite. O carro e Damian eram tudo o que existia 
no universo de Laurel. 
    Com os braos fortes, ele a mantinha colada a seu corpo rijo, a boca quente e aberta junto  dela, penetrando-a com a lngua num ato ntimo to intenso que a 
fazia estremecer. Sentia-se frgil e feminina, consumida pela masculinidade dele. O beijo dele exigia rendio total, prometendo, em troca, a realizao de suas 
fantasias mais loucas. 
    No haveria desistncia. No naquela noite. No com ele. Errado, isto  errado. As palavras insinuavam-se em sua mente, mas a mensagem pulsando em seu sangue 
era muito mais eloqente: Pare de pensar. Entregue-se s sensaes. 
    E ela se entregou. Sentia a dureza do corpo de Damian. A avidez de seus beijos. O calor de suas mos ao toc-Ia. Era tudo to novo... mas no parecia. Acabavam 
de se conhecer, mas Damian no era um estranho. Talvez por isso algumas pessoas acreditassem em vidas passadas. Era como se houvesse conhecido Damian em outra vida, 
ou desde o incio dos tempos. 
    Fechou os olhos quando ele tomou seu rosto nas mos e o tateou, deslizando-as ao longo de seu pescoo at alcanar os seios. Ele roou os mamilos com os polegares, 
ao que ela gritou junto  boca dele. 
    Damian sussurrou seu nome com voz rouca, depois murmurou palavras em grego, que ela no entendia. Mas no havia dvida quanto ao fogo que ele deitava em sua 
pele com a ponta dos dedos, ao sabor de seus beijos e a sua inteno ao pegar-lhe a mo e coloc-Ia junto ao poder e rigidez de sua masculinidade. 
    - Sim - murmurou Laurel, ofegante. 
    Com um grunhido baixo, ele levantou-lhe a saia, deslizou a mo ao longo de suas pernas e mergulhou-a no calor que encontrou entre suas coxas. 
    O choque ante aquela sexualidade crua atravessou o corpo de Laurel como um raio. Com um lamento, ela agarrou-lhe o pulso. O que sentia, o que ele a fazia sentir, 
era quase insuportvel. 
    - Damian ... Damian, por favor! 
    - Diga-me o que quer - ordenou ele, severo. - Diga. 
    Voc, pensou ela. Quero voc. 
    Sim, queria-o como nunca quisera um homem, no s com o corpo, mas tambm com algo mais, algo que no conseguia definir... 
    A ponto de desvendar o segredo, ela desviou o rosto da boca sedenta de Damian. 
    - Escute, acho que... 
    - No pense - interrompeu. ele. - No esta noite. 
    Antes que ela pudesse protestar, ele enterrou os dedos em seus cabelos, tomou-lhe o rosto e beijou-a. 
    No estava agindo de maneira civilizada. 
    Damian sabia disso, mas tomou a boca de Laurel novamente. A mesma necessidade selvagem corria nas veias dela, conforme evidenciava pelos suspiros, pelas carcias, 
pela resposta faminta a seus beijos. Contudo, ela recuava, temerosa da tempestade de paixo que rugia entre ambos, supunha ele. 
    Bem, no podia culp-Ia. 
    Acontecia algo ali, algo que ele nem tinha a pretenso de compreender. Sabia apenas tratar-se de algo poderoso e elementar demais para se negar. Preferiria parar 
de respirar a abrir mo daquele momento. 
    Minutos antes, quanto a tocara intimamente, fazendo-a gritar derrotada, por pouco no lhe arrancara a calcinha, abrira o zper da cala e penetrara bem fundo 
nela. 
    No se detivera por decoro, nem por juzo. Poderia at iludir-se, mas a verdade era mais simples, e muito mais bsica. Detivera-o uma necessidade vital de despi-Ia 
lentamente, de sorver-lhe a beleza nua com os olhos, as mos e a boca. 
    Queria fit-Ia no rosto ao acarici-Ia com vagar, ver suas pupilas se dilatarem ante o prazer, toc-Ia a provoc-Ia at que ansiasse por ser possuda. Queria-a 
na cama, em sua cama, nua em seus braos, com a pele ardente, rumo a um clmax que se revelaria o mais espetacular que ambos j haviam experimentado. A intensidade 
de seu desejo era alarmante, mas no ligava a mnima. 
    No agora, com o corpo todo rgido e fervente. Queria Laurel mais do que jamais quisera algo, ou algum, no mundo. 
    No restaurante, ela o acusara de no ser um cavalheiro, mas ele nunca fora mesmo. Agora, tendo o rosto dela em suas mos, fitando-a nos olhos, descobria que 
preferiria enfrentar o fogo do inferno a fingir-se um cavalheiro. 
    Damian morava na Quinta Avenida, num apartamento duplex de cobertura servido por elevador privativo. Isolado, parecendo inatingvel, a sensao era de se estar 
num castelo de conto de fadas. 
    Quando as portas do elevador se fecharam, viram-se a ss no saguo fracamente iluminado. A noite estava to silenciosa que Laurel podia ouvir as batidas do prprio 
corao. 
    Ainda havia tempo. Ela poderia dizer: "Foi um equvoco", e exigir que a levasse para casa. Damian no apreciaria, mas e da? Simplesmente no era o tipo de mulher 
que ia para a cama com um homem que conhecera menos de vinte e quatro horas antes. 
    Ele apoiou as mos em seus ombros e fez com que se voltasse. 
    O que viu refletido nos olhos dele eliminou todo pensamento lgico de sua mente. 
    - Laurel... 
    Era o bastante para que ela se entregasse aos braos dele. Ele a beijou impetuoso, erguendo-a de encontro a si, as mos apertando-lhe os quadris de encontro 
a sua ereo. E provocava-lhe a boca entreaberta. Mordiscou-lhe o lbio inferior e ento tratou o pequeno ferimento com a lngua, at que ela, trmula, Se agarrasse 
a sua lapela. 
    - Diga-me o que quer agora - ordenou ele, num sussurro selvagem. 
    A resposta estava nos olhos dela, mas ela deu-lhe voz: 
    - Voc ... Voc, voc, voc...
    Damian beijou-a, o corao descompassado ante o triunfo, e levou-a no colo escadaria acima. 
    O quarto de Damian era enorme. A cama, banhada pelo luar, ficava junto a uma parede de vidro alm da qual a metrpole cintilava na noite. 
    Sem pressa, ele colocou Laurel de p no cho. Por alguns instantes, no a tocou. Ento, ergueu a mo e acariciou-lhe o rosto. Ela fechou os olhos, entregue  
sensao. 
    Ele passou a mo nos cabelos dela, ainda presos. 
    - Solte-os - pediu, brando. 
    Laurel abriu os olhos e levou as mos ao penteado j meio desfeito. Gostaria de ver o rosto de Damian enquanto soltava os grampos restantes, mas ele se mantinha 
mis sombras. A massa de cabelos derramou-se em seus ombros. 
    - Lindos... - admirou ele, dando um passo  frente. Damian pegou um dos brilhantes cachos avermelhados e levou-o aos lbios. Foi como roar seda nos lbios, 
e a fragrncia lembrava um jardim aps uma chuva de primavera. Soltou-o. 
    - Agora, os brincos... 
    Laurel ocupou-se das pequenas contas de cristal em fio dourado que pendiam de suas orelhas. Parecia confusa, como se houvesse esperado algo diferente, um mergulho 
nas chamas da paixo, mas no era, em absoluto, o que ele tinha em mente. Seu autocontrole estava por um fio: No podia toc-la agora. Se o fizesse, tudo estaria 
acabado antes de comear, e no queria isso. 
    No haveria pressa. No com ela. No naquela noite. Damian estendeu a mo e Laurel entregou-lhe os brincos. Ela levou as mos aos botes prateados da jaqueta 
de seda, e ele assentiu. Dali a segundos, a pea caa ao cho. 
    -  s - determinou ele, em seguida, segurando-lhe os pulsos. 
    - Eu cuido do resto. 
    Ela sentiu a urgncia na voz dele, o ligeiro tom de comando. 
    Seus olhos azuis fulguravam, uma paixo sombria dominava-lhe o semblante, provocando nela uma pulsao errtica. 
    Mas ele se mostrou gentil ao despi-Ia, to vagarosamente que ela pensou que morreria de prazer. Primeiro, a blusa, depois, a saia, a combinao, o suti, at 
que se viu diante dele s de sandlias de salto alto, meias, meia-liga e calcinha de renda branca. 
    Sem flego, Damian deu um passo atrs para apreci-Ia. Sentindo que enrubescia, ela quis levar os braos cruzados aos seios, mas ele a impediu: 
    - No se esconda de mim! Laurel, matya mou, como voc  linda... 
    Laurel no compreendia aquelas palavras estranhas, mas queria dizer a Damian que, no importava o que ele pensasse, aquela era sua primeira noite, que nunca 
se entregara a nenhum homem dessa maneira, nunca desejara nenhum homem dessa maneira. 
    Queria dizer mil coisas, mas s conseguiu murmurar o nome dele. 
    Damian tomou-a nos braos, beijou-a e levou-a para a cama. Aps abrir os fechos da meia-liga, baixou-lhe as meias e jogou-as no cho. Ento, beijou-lhe os ps 
e sugou-lhe os dedos. Ajoelhando-se a seu lado, ocupou-se da cinta-liga. Suas mos tremiam, o que era estranho, pois j vivera aquela cena centenas de vezes: levar 
uma mulher para a cama e despi-Ia. No entanto, ao ver Laurel nua diante de seus olhos, sentiu o corao bater descompassado. 
    Segurando-a pelos ombros, ergueu-a de encontro a si e beijou-a na boca, ao mesmo tempo que ela lhe agarrava o palet. A tenso crescia dentro dela, ameaando 
o pouco controle que lhe restava. Sabia que estava na hora de parar de toc-Ia. Precisava livrar-se das prprias roupas e sentir-se dentro daquela mulher, sob pena 
de se humilhar como um garoto inexperiente, mas no conseguia. 
    Nada o impediria de descobrir o sabor da pele de Laurel. Beijou-lhe os seios, sorvendo os mamilos enrijecidos. Ela gritou seu nome e arqueou o corpo de encontro 
ao dele, numa excitao contagiante. Deslizou a mo sobre o quadril arredondado, os dedos roando os plos macios que formavam um tringulo entre as coxas macias, 
sentindo a tenso no prprio abdmen aumentar. 
    - Laurel, olhe para mim. 
    Ela abriu os olhos, as ris azuis quase tomadas pelas pupilas negras. Ofegante, ela exibia o rosto e os seios tingidos com o vermelho da paixo. 
    Ele lhe fizera isso, gabou-se Damian, proporcionara-lhe aquele prazer. Com os olhos fixos nos dela, baixou ainda mais a mo e tocou-a, ao que ela emitiu um gritinho 
selvagem.  
    Damian abandonou-a na cama e comeou a tirar a roupa. Suas mos tremiam, como se estivesse para entrar num mundo desconhecido, sem saber se encontraria a alegria 
indescritvel ou o desespero enlouquecedor. Mas no ligava a mnima. 
    S o que importava era aquele momento, aquela mulher. Laurel. Belssima Laurel... 
    Nu, ele se ajoelhou na cama. Ela o contemplou, plida agora, exceto pelas bochechas rosadas. A urgncia dentro dele pareceu se aplacar. Por alguns instantes, 
quase acreditou que bastaria t-Ia nos braos e beij-Ia a noite toda, sentindo o corao feminino palpitante junto ao seu. 
    Mas quando ela sussurrou seu nome e abriu os braos chamando-o, ele soube que precisaria de mais. Precisaria penetr-Ia, possu-Ia, como os homens faziam desde 
o incio dos tempos. 
    - Laurel...  
    Quando seus olhos se encontraram, ele desistiu de raciocinar, separou-lhe as coxas e mergulhou fundo em seu calor. 
    
    Laurel levantou-se da cama com todo o cuidado. 
    Damian dormia profundamente, a julgar por sua respirao tranqila, regular. 
    Suas roupas estavam espalhadas pelo cho. Ao recolher as peas uma a uma, silenciosamente, imaginou como ele a despira, como ela lhe permitira despi-Ia, como 
ela desejara que ele a despisse. 
    Sentiu o estmago embrulhado, de repente. 
    Deixou o quarto e percorreu o apartamento em penumbra. No queria acender as luzes, arriscando-se a acordar Damian. 
    O que foi que fizera? 
    Sexo, respondeu a si mesma, fria. Uma aventura, do tipo que as outras mulheres viviam se gabando, ao mesmo tempo maliciosas e desdenhosas. Sim, tivera uma noite 
de loucura nos braos de um homem que certamente sabia como arranjar companhia feminina. 
    Suas mos tremiam ao fechar o zper da saia. 
    Violara todos os preceitos morais sob os quais sempre vivera. 
    Humilhara-se. 
    Deixou escapar um lamento. Transformara-se numa outra mulher, e a idia de que tal mulher existia dentro de seu ser a perseguiria para sempre. 
    As coisas que fizera naquela noite, as coisas que deixara Damian fazer... 
    O que lhe acontecera? Bastara v-Io ajoelhado entre suas coxas para entregar-se. Afinal, tratava-se de um espcime masculino perfeito, magnfico, com aqueles 
ombros largos reluzentes, aqueles cabelos escuros em torno do rosto. O brinquinho de ouro na orelha era o nico adorno que um homem precisava. 
    Ento, quando ele a penetrara... Estendera o corpo para receb-Io, para cont-Io. E ele investira contra ela, vezes sem conta, at faz-Ia gritar e estilhaar-se 
em milhes de pedacinhos. 
    - Damian... Oh, Damian... - murmurara ela. 
    - Eu sei - confortara ele, os lbios sobre os dela. 
    Ele comeou a se mexer de novo, e ela o sentiu ainda l dentro, fundo. As chamas encorparam-se mais lentamente da segunda vez, no porque ela o desejara menos, 
mas porque ele quisera assim, recuando para depois avanar, preenchendo-a, elevando-a cada vez mais, at que ela se viu, de novo, percorrendo um cu noturno como 
um cometa, para s ento voltar  Terra. 
    Conhecera o paraso, imaginara, imobilizada entre os braos de Damian. Ele sussurrou-lhe palavras doces ao ouvido, fazendo-a corar, beijou-a na testa e na boca, 
abraando-a com fora, at que ela mergulhou num sono sem sonhos. 
    Horas depois, um som, uma brisa leve entrando pela janela, despertou-a. Por um segundo, sentira-se confusa. Aquele no era seu quarto... 
    Ento, lembrou-se. Estava nos braos de Damian, na cama dele, com o cheiro dele por toda a pele. De repente, sob os primeiros raios do sol na madrugada, enxergava 
a noite conforme fora realmente. 
    Barata. Espalhafatosa. Feia. 
    Que paraso, qual nada! Uma aventura de uma noite. Fora para a cama com um estranho, e fizera com ele coisas que jamais... sentira coisas que jamais ... 
    - Laurel? 
    Ela engoliu em seco e voltou-se. Damian estava  porta do quarto, banhado pela luz dourada de um abajur. Nu sem o menor pudor. Parecia uma esttua grega que 
criara vida, cinzelada no em mrmore frio, mas em carne quente. O sorriso meio sonolento comeava a desaparecer.  
    - Desculpe-me se o acordei, Damian... Tentei no fazer barulho, mas... 
    Cus, ela estava gaguejando! Nunca sara sorrateiramente do apartamento de um homem antes, mas com certeza no lhe faria tal revelao. De qualquer forma, sempre 
havia uma primeira vez para tudo. Aquela noite era uma prova disso. 
    Damian caminhava em sua direo. - Laurel... 
    - No, no precisa me acompanhar! - apavorou-se ela. -  s descer a escada e tomar o elevador... 
    - O que est havendo? - questionou ele, bravo. 
    - Nada. S que  tarde. Ou cedo, no sei bem. Preciso ir para casa trocar de roupa - Laurel calou-se quando ele a tomou nos braos. - Damian, no. 
    - Ah, j entendi. - Satisfeito, ele mordiscou-Ihe a orelha gentilmente. - Arrependimento matinal. Conheo o remdio para isso... 
    - No... - protestou ela, sem a menor convico. 
    Sua cabea tentava impor o juzo, mas seu corpo traidor seguia no caminho oposto. Percebia a agitao de Damian, o que lhe provocava um calor nas entranhas. 
    Srio de repente, Damian fitou-a com os olhos agora em tom cinzento. 
    - Laurel, volte para a cama. 
    - No. J lhe disse, no posso. 
    Ele inclinou a cabea e beijou-a de novo, separando-lhe os lbios. 
    - Pode, sim, e quer  contrariou. - Sabe to bem quanto eu. 
    Laurel fechou os olhos enquanto Damian a beijava no pescoo. 
    O pior era que ele estava certo. Ela queria acompanh-lo  cama imensa ainda impregnada do amor que tinham feito  noite. 
    Mas aquilo no fora amor. Fora... Havia uma palavra que definia o que haviam feito, um termo to feio, to vil que s de pensar nele sentia-se suja. 
    Ele j lhe desabotoava o primeiro boto da blusa. Dali a pouco, teria desabotoado todos, comearia a toc-Ia e ela no quereria det-Io... 
    - Pare! - gritou, segurando-lhe os pulsos. - Ns... nos divertimos, eu admito, mas no vamos estragar tudo. Ambos sabemos que foi uma dessas coisas que acontecem. 
No  preciso dizer mais nada. 
    Damian a encarava de cenho franzido. 
    -  Pensei que... 
    - Que fssemos passar mais tempo juntos? - Laurel forou um sorriso. - Lamento, Damian, mas prefiro parar por aqui. Conhece o ditado, o exagero estraga. 
    E aguardou imvel a resposta dele, sabendo que, se ele a tomasse nos braos e beijasse de novo, sua pattica demonstrao de coragem se revelaria uma farsa. 
    Mas ele no a tocou. Observou-lhe o rosto detidamente e ento cedeu: 
    - Como quiser. Creio que tem razo. Nunca  bom exagerar em nada. - Com um sorriso gentil, deu-Ihe as costas. - Apenas me d um minuto para me vestir, e a levarei 
para casa. 
    Laurel apavorou-se. 
    - No, eu pego um txi! Ele deu meia-volta. 
    - De jeito nenhum. 
    - Sou perfeitamente capaz de ir para casa sozinha. 
    Damian cruzou os braos, impondo-se em todo o esplendor de sua nudez. 
    - Acontece que estamos em Nova York e no sou homem de deixar uma mulher andar sozinha pelas ruas a esta hora. 
    - Deixar?! No preciso que me deixe fazer nada! Adeus, Damian. 
    Rpido, ele a segurou pelo brao, enterrando os dedos em sua carne. 
    - Que se passa, Laurel? Pode me dizer? Ela olhou para o teto. 
    - Eu j disse ... 
    - Eu ouvi, mas no acredito em voc. - Ele afrouxou a mo, transformando o aperto num contato prazeroso. - Voc sabe que quer mais do que isso. 
    - Pare de dizer o que acha que eu quero! 
    Damian sorriu... 
    - Est bem. Espere eu me vestir, vamos tomar caf e conversar a respeito. 
    - Quantas vezes vou ter de dizer que no estou interessada, Damian? 
    Os olhos dele se obscureceram. Longos segundos se passaram e, ento, ele a soltou. De volta ao quarto, pegou o telefone e apertou uma tecla. 
    - Stevens? A srta. Btmnett j vai. Pegue o carro, por favor. 
    - Por que fez isso? - protestou Laurel. - No precisava acordar o chofer! 
    Damian olhou-a impassvel. 
    - Stevens apreciaria sua considerao, mas ele trabalha para mim h anos e est acostumado a cumprir misses nas horas mais inusitadas. Consegue chegar ao elevador 
ou devo chamar a empregada? 
    - Consigo. 
    - timo. Nesse caso, se me d licena... 
    Damian fechou a porta com toda a delicadeza. 
    Laurel permaneceu alguns segundos olhando para a superfcie polida, sentindo o sangue tomar-lhe as faces, odiando a si mesma e odiando a ele. Ento, foi embora. 
    Algum dia esqueceria o que fizera naquela noite? Ou melhor, algum dia esqueceria que, a nica vez que vislumbrara o cu, fora nos braos de Damian Skouras? 
    
    No saguo de entrada do apartamento, s de cala jeans, Damian olhava carrancudo para o painel do elevador cujos nmeros iluminados marcavam a descida de Laurel. 
    Bolas, o que acontecera entre o momento em que fizeram amor e agora? Adormecera abraado a uma mulher satisfeita e, ao acordar, encontrara uma estranha vestindo-se 
no corredor. 
    No, no era uma estranha. Laurel apenas voltara a ser o que era antes de se conhecerem, uma linda mulher de lngua afiada e humor de urso cinzento. E esforara-se 
ao mximo para convenc-Io de que para ela tudo no passara de uma aventura de uma noite. 
    O elevador chegou ao trreo. O chofer j devia estar aguardando Laurel em frente ao prdio.  
    Apressado, foi ao terrao e a viu entrar no carro. Stevens fechou a porta, postou-se atrs do volante e partiu. 
    Ponto final. 
    Ora, a quem queria enganar? No desistiria to facil. O cheiro dela ainda lhe impregnava a pele e os lenis. A voz dela sussurrando seu nome enquanto faziam 
amor ecoava em sua mente. 
    Era mentira que seu chofer estivesse acostumado a cumprir misses em horrios inusitados. Nenhuma mulher jamais dispusera-se a deixar sua cama to depressa. 
Alis, seu maior problema era livrar-se delas, no convenc-Ias a ficar. 
    No quarto, um pequeno brilho no carpete chamou-lhe a ateno. Era um dos brincos de Laurel. Colocou-o na mesa-de-cabeceira. J amanhecia, estava cansado e, pensando 
bem, o bom da noite fora todo o trabalho que tivera para levar Laurel Bennett para a cama. 
    Assobiando, foi para o chuveiro. 
    
    Sentada  mesa da cozinha de Laurel, Susie Morgan observava-a sovar uma massa com fermento. 
    Talvez "castigar" fosse um termo mais preciso. Laurel batia na pobre massa havia pelo menos quinze minutos, desde que ela chegara para assistir a sua tradicional 
confeco de pes das manhs de sexta-feira. 
    Nunca, nos trs anos em que se conheciam, vira a amiga to zangada. Se bem que ultimamente Laurel vinha alternando estados de ira e de infelicidade sem motivo 
aparente. 
    Pensando bem, a mudana se dera de umas quatro semanas para c, desde que ela sara para jantar com Damian Skouras. Ela nunca mais mencionara o nome dele, e 
ele no aparecera de novo, tampouco. 
    Ora, vira muito bem o modo como Damian olhara para Laurel, e vice-versa. S faltara soltarem fascas! 
    Bem que tentara sondar, no dia seguinte: 
    - E como vai o Adonis? 
    Laurel franzira o cenho. 
    - Quem? 
    Susie suspirara. 
    - O grego, aquele bonito cheio da grana. 
    - Como vou saber? 
    - No esto mais se encontrando? 
    - S me encontrei com ele uma vez, sob protesto. 
    - Bem, imaginei que... 
    - Imaginou errado - cortara Laurel, encerrando o assunto. 
    - Certo. Mas, se quiser desabafar... 
    - Obrigada, mas no h nada para se falar a respeito. 
    Susie a deixara em paz ento, mas nem um pouco convencida. Agora, vendo-a, descarregar toda a fria numa pobre massa de po, achou por bem intervir: 
    - Laurel? 
    - Hum? 
    - No acha que j est bom? 
    Laurel deu mais um soco na massa e afastou uma mecha de cabelo da testa. 
    - Ainda no. 
    Susie contraiu os lbios. Endireitando-se na cadeira, cruzou as longas pernas de bailarina e cruzou as mos em torno do joelho. 
    -  algum que conheo? 
    - Hum? 
    - Esse que voc est massacrando. Acredito que h nessa massa um rosto que s voc pode ver. 
    Laurel passou as costas da mo pela testa. 
    - Est imaginando coisas. Estou fazendo po, no desabafando minhas frustraes. 
    - Sei... 
    Laurel deu mais alguns socos na massa, jogou-a numa vasilha e cobriu-a com um pano molhado. 
    A vizinha voltava  carga: 
    - Achei que podia ser Damian Skouras o objeto de sua ira. Ele no apareceu mais? 
    Laurel limpava as mos com um pedao de toalha de papel. 
    - Suze, voc me perguntou isso no outro dia e eu respondi que no. 
    - Disse tambm que no esperava, nem queria que ele a procurasse. 
    - Exato. - Laurel pegou a cafeteira no fogo e encheu de novo a xcara da vizinha. Ia se servir tambm, mas sentiu um enjo ao sentir o cheiro da bebida e desistiu. 
- Mas, diga-me, como vai o bonito do seu marido? 
    - Ah, ele est na academia torneando os msculos para manter o interesse das fs. E no tente mudar de assunto.  do seu bonito que estamos falando. 
    Laurel expirou ruidosamente. 
    - Damian Skouras no  nada meu. Quantas vezes vou ter de repetir isso? 
    - Milhares. - A vizinha ergueu a xcara com as duas mos, soprou o vapor quente e tomou um golinho. - Por que no faz sentido. Voc  a mulher mais lgica e 
sensata que conheo. 
    - Obrigada. 
    - Por isso, fico me perguntando: como uma mulher to lgica e sensata pode dar as costas, a um milionrio? No d para entender! 
    - Simplesmente porque no h nada para entender! J lhe disse: sa para jantar com Damian Skouras e... 
    - J percebeu como fala dele? - questionou Susie. 
    - Como? 
    - Dizendo o nome completo, como se no tivessem a menor intimidade. 
    Como se nunca houvssemos dormido juntos, completou Laurel, sentindo que enrubescia. 
    O rosto da vizinha se iluminou. - Ah, est vendo? 
    - O qu? 
    - Voc sempre fica vermelha ao falar de Damian Skouras. 
    Laurel levantou, foi at a pia e abriu a torneira. - Adoro voc, Suze, mas  muito xereta, sabia? 
    - Laurel, eu s quero ajudar... 
    Laurel demorava-se lavando as mos. 
    - Mas no estou com nenhum problema! 
    - Querida, eu estava aqui naquela noite, lembra-se? Vi o modo como vocs dois se olharam. Saem para jantar e nunca mais se vem... 
    Laurel voltou-se, ainda enrubescida, mas de raiva agora. - Espero nunca mais ver aquele bandido! 
    A vizinha ergueu o sobrolho, perspicaz. 
    - Quer dizer que ele lhe fez alguma coisa? 
    Laurel desviou o olhar. No era um caso de seduo e abandono. 
    Deitara-se com Damian e abandonara a cama dele por vontade prpria. Se agora as lembranas a perseguiam e humilhavam, no tinha a quem culpar seno a si mesma. 
    - Susie, vamos mudar de assunto, est bem? A vizinha conformou-se: 
    - Se prefere assim... 
    - Prefiro. 
    - Assunto encerrado, ento. 
    - Obrigada. 
    - Tenho s mais uma observao. 
    Laurel grunhiu de desgosto, mas no tinha alternativa seno ouvir. 
    - Qual? 
    Fazendo suspense, Susie abriu o armrio e pegou uma caixa de biscoitos. 
    - Foi a primeira vez que soube de voc chegando sorrateiramente de manhzinha. - Abriu a caixa. - Oh, restam dois, um para mim, um para voc. 
    Laurel olhou para o biscoito de marshmallow coberto com chocolate e sentiu o estmago se revirar. - Acho que vou deixar passar. 
    - Posso comer os dois? 
    - Considere este seu dia de sorte. Mas como soube que cheguei de manhzinha? 
    A vizinha j saboreava um biscoito. 
    - Resolvi correr naquele dia e acordei bem cedo. Sabe como range o assoalho deste casaro velho. Ouvi voc andando para l e para c, parecendo nervosa. 
    Eu s estava tentando me convencer de que no devia me odiar pelo que fizera, porque j pertencia ao passado e eu jamais faria de novo! 
    - Para onde ele a levou naquela noite? - perguntou a amiga. Laurel comeou a lavar uma xcara como se fosse uma frma queimada. 
    - Para jantar.
    - E depois? 
    Para o paraso, pensou Laurel. De repente, as lembranas que tanto lutara para enterrar, das sensaes que experimentara naquela noite, voltaram com toda fora. 
    Talvez no devesse ter abandonado Damian. Talvez devesse ter ficado com ele. podia ter comeado do ponto em que a loira havia parado... 
    A xcara escorregou de suas mos e espatifou-se no cho. 
    - Oh, no! - Com lgrimas nos olhos, abaixou-se e comeou a recolher os cacos de porcelana. Levantando-se, jogou-os no lixo e enxugou as mos na parte traseira 
da cala jeans. Encarou a  amiga. - Quer mesmo saber o que aconteceu naquela noite? 
    - Laurel, querida, eu no quis.... 
    - Eu dormi com Damian Skouras. 
    Susie ficou boquiaberta. 
    -Vau! 
    - Dormi com um homem que mal conhecia, com quem no simpatizava e a quem no queria rever, porque... porque... 
    - Eu entendo - ajudou a vizinha. 
    Os olhos de Laurel brilharam de raiva. 
    - Como voc pode entender, se eu mesma no entendo? 
    - Porque dormi com Grey na primeira vez que samos. 
    Laurel sentou-se numa banqueta. 
    - Jura? 
    - Juro. E nunca tinha feito isso antes. 
    - Por que resolveu fazer, ento? 
    Susie deu um sorriso constrangido. 
    - Sei l! Destino. Hormnios. Simplesmente aconteceu. Acho que meu corao e meu corpo sabiam o que meu crebro ainda no tinha concludo: que Grey e eu ramos 
almas gmeas. 
    Laurel desanimou-se. 
    - Mas  eu no tenho nem essa desculpa. Damian Skouras e eu no somos almas gmeas. Fiz o que fiz, e agora tenho de viver com isso. 
    - Nunca imaginei que o Adonis fosse capaz de um papelo desses! 
    Laurel riu. 
    - H um minuto, voc o idolatrava! 
    - H um minuto, eu no sabia que ele tinha se aproveitado de voc e depois tomado a atitude machista clssica. 
    - Ele no se aproveitou de mim - esclareceu Laurel. - Fui porque quis. 
    A vizinha pegou o ltimo biscoito da caixa. - Mesmo assim. Ele se satisfez e ento a dispensou. 
    Laurel fitou a amiga por um segundo. Ento, voltou  pia e comeou a esfreg-Ia. 
    - Eu disse para ele no me ligar. 
    - O qu?! 
    - Ele queria me ver mais vezes. Eu disse que estava fora de questo, que no estava interessada naquele tipo de relacionamento. 
    - Voc e Damian fizeram amor, foi maravilhoso e voc disse que no queria mais v-l o? 
    Laurel suspirou, cansada, sempre esfregando a pia. - Ns no fizemos amor. S dormimos juntos. 
    A vizinha deu de ombros. - Qual a diferena? 
    - Susie,  diferente do que houve entre voc e Grey. Voc o amava. Mas eu no amava Damian, no posso me imaginar amando Damian. Ele  arrogante, egosta e machista 
demais. - Cansada de esfregar, Laurel enxaguou as mos e secou-as numa toalha. - Isso  tudo. 
    A vizinha parecia ctica. - Deve estar havendo algum equvoco. Vi como vocs dois se olharam. 
    Laurel voltou a sentir enjo, mais forte dessa vez, tanto que teve de se apoiar na beirada da pia. 
    - Laurel, voc est bem? 
    - No foi nada. S estou um pouco... 
    - Cansada de aturar uma vizinha xereta - concluiu Susie. 
    - Vou deix-Ia em paz.  Ei, que tal jantar l em casa hoje  noite? Grey vai fazer aqueles pasteizinhos, lembra-se? Voc adorou! 
    Sim, Laurel lembrava-se dos pasteizinhos recheados com carne moda e cebola, encharcados de manteiga... 
    - Claro que me lembro, estavam deliciosos! - Disfarou o mal-estar. - Mas acho que este po vai ser minha nica extravagncia por algum tempo. Sou modelo, voc 
sabe. Tenho um trabalho na semana que vem e preciso perder uns quilinhos. Fica para a prxima, est bem?
    A vizinha recostou-se na pia. 
    - Esquea os pastis, ento. Grey e eu tambm precisamos manter a linha. Que tal uma lasanha light no microondas? 
    Laurel recordou o aroma cido do molho de tomate que acompanhava a tradicional massa italiana. Engoliu em seco. 
    - Susie, para ser franca, eu estava pensando em no jantar hoje. Acho que, peguei gripe. Deve ter sido naquela sesso de fotos em Bryant Park, na semana passada. 
Muitos da equipe tossiam e espirravam e, de l para c, tenho me sentido pssima. 
    - Gripes de vero so as mais perigosas - enunciou a amiga. - Tome duas aspirinas, uma boa canja de galinha e... Laurel, voc est bem? 
    Mal do estmago, Laurel de repente arregalou os olhos, levou a mo  boca e saiu correndo da cozinha, 
    Quando saiu do banheiro, vrios minutos depois, plida e trmula, Susie a aguardava no quarto. 
    - Melhorou? 
    - Acho que sim... 
    A amiga fitou-a detidamente no rosto lvido. 
    - Est com enjo? 
    - Estou, deve ser por causa da gripe... 
    - Sabe, minha irm teve algo parecido no ano passado, nusea pela manh, averso a comida e mal-estar contnuo. 
    Laurel afastou os cabelos do rosto. Sentia a pele pegajosa e o enjo persistia, apesar de estar com o estmago totalmente vazio: 
    - Susie... 
    - Ento, ela foi ao mdico. 
    - No vou ao mdico. S preciso descansar por uns dois dias e... 
    - Estava grvida. 
    Laurel ficou boquiaberta. 
    - Grvida?! No diga bobagem, Susie! 
    Era como se o cho lhe fugisse aos ps. No, no era possvel. Ou era? Quando tivera a ltima menstruao? No se lembrava. Fora na poca em que estivera com 
Damian? 
    No. No! 
    Sentou-se na beirada da cama, mole como uma boneca de pano. 
    Tudo acontecera to rpido naquela noite. Damian usara preservativo? No que se lembrasse. Ela no tomara a menor precauo. Para que tomar plulas, se o sexo 
era uma das ltimas prioridades em sua vida? Algumas mulheres mantinham na bolsa o diafragma, mas no ela. No era do tipo que se atirava na cama de um homem sempre 
que surgia a oportunidade. 
    Encarou a amiga Susie tentando parecer descontrada. 
    - No posso estar grvida. 
    - Tem certeza? 
    - Ora, uma nica noite... 
    Uma nica e interminvel noite. 
    -  melhor marcar uma consulta com o mdico - aconselhou a vizinha. 
    - No. Eu no estou grvida.  s uma gripe. 
    Susie suspirou. 
    - Que seja. No custa confirmar.
     Laurel levantou-se e declarou: 
    - Vou tomar aspirina e passar o dia todo de amanh em repouso, tomando lquidos. Se na segunda-feira ainda no estiver melhor, irei ao mdico. 
    - Ao ginecologista - especificou a amiga. 
    - Isso mesmo. - Laurel acompanhou Susie at a sada. - Agora, descanse essa sua cabecinha criativa, enquanto me recupero desta gripe. Ah, e voc e Grey esto 
me devendo um jantar, hein! 
    - Se precisar de algo,  s chamar - concluiu a vizinha. 
    - Obrigada, mas tenho certeza de que no  nada. Depois de amanh, estarei novinha em folha! 
    Susie saiu ao corredor e acenou-lhe antes de descer a escadaria. Laurel deixou de sorrir assim que fechou a porta. Recostando-se na parede, fechou os olhos com 
fora, murmurando: 
    - No estou grvida. 
    
    Laurel estava grvida. 
    De quatro semanas, informava-lhe a sexagenria dra. Glassman em seu amplo consultrio em Manhattan. 
    - Certeza absoluta, Laurel. Voc est grvida. 
    Grvida. Do filho de Damian. 
    - Voc se casou, desde a ltima vez que a vi? - especulou a mdica. - Ou resolveu ter um filho sozinha, como fazem cada vez mais mulheres? 
    Laurel baixou os olhos. 
    - No, no me casei. 
    - No me leve a mal, por favor; mas gostaria que considerasse participar a notcia ao pai da criana. - A mdica olhava-a de modo maternal. - Toda criana deve 
contar com o pai e a me, sempre que possvel. 
    Laurel no disse nada. 
    - Alguma dvida? - indagou a dra. Glassman. 
    - No. Por ora, no. 
    - Ento, por hoje  s. - A mdica pegou um carto, rabiscou qualquer coisa nele e entregou-o a ela. - Ligue-me na tera-feira para saber o resultado dos exames 
de laboratrio, mas garanto que no vai haver novidades. Voc goza de excelente sade e no vejo por que seu beb no nasceria perfeito e saudvel tambm. 
    Laurel levantou-se, seguida pela dra. Glassman. A mdica lhe sorriu, mas ela no conseguiu sorrir de volta. 
    A dra. Glassman recostou-se na mesa. 
    - Laurel?  claro que, se estiver pensando noutra possibilidade... 
    - Estou grvida de quatro semanas, a senhora disse. 
    - Mais ou menos. 
    - E... tudo parece em ordem? 
    - Mais perfeito, Impossvel. 
    Laurel fitava as prprias mos, agitada. 
    - E se eu decidisse... quero dizer, se... 
    - Ainda tem bastante tempo para decidir, minha cara - tranqilizou a mdica. - Pense bem. 
    Laurel aquiesceu. Sentia-se com mil anos de idade. 
    - Obrigada, doutora. 
    A mdica envolveu-Ihe os ombros com o brao ao acompanh-Ia at a porta. 
    -  uma deciso muito sria - observou. - Se precisar conversar com algum, procure-me. 
    Um beb, pensou Laurel, descendo pelo elevador. Carne de sua carne. Um filho seu e de Damian. 
    Filhos deviam ser concebidos por amor, no nos espasmos de uma paixo sem sentido, to despropositada que passara as ltimas semanas tentando bani-Ia das recordaes. 
Sem sucesso. A cada alvorecer radiante, lembrava-se do que fizera e odiava-se por isso. 
     noite, porm, quando o luar abrandava as sombras, sonhava com Damian e despertava enrolada nos lenis, com a lembrana das beijos dele ainda quentes em seus 
lbios. 
    As portas do elevador se abriram no andar trreo do edifcio comercial e Laurel concentrou-se na realidade. No era hora de sonhar. Tinha uma deciso a tomar. 
No havia lugar em sua vida para um beb. Seu apartamento no era grande o bastante. Sua vida era agitada demais. Ao mesmo tempo, sua carreira como modelo estava 
em declnio e o futuro assomava incerto a sua frente. Alm disso, conforme observara a dra. Glassman, toda criana devia poder contar com o pai e a me, sempre que 
possvel. 
    O som de seus saltos altos contra o piso de granito ecoava pelo amplo saguo do prdio ao atravess-Io na direo da sada. 
    Um beb. Uma criatura inocente, toda sorrisos e balbucios. Uma criana para se cobrir de amor. Para aquecer-lhe o corao e dar um propsito a sua existncia. 
Uma parte de Damian que seria sua para sempre. Sentiu um n na garganta. 
    Na calada, um vento forte agitou-Ihe os cabelos e fez rodopiar papis de bala e uma folha de jornal a seus ps. 
    Por que continuar se torturando? No teria aquela criana. J no decidira isso? Tinha uma justificativa lgica... 
    - Laurel? 
    Seu corao descompassou-se. Conhecia aquela voz, recordara-a mil vezes naquelas ltimas longas e torturantes semanas. Mas no podia ser Damian. Era a ltima 
pessoa em quem queria pr os olhos, ainda mais agora. 
    - Laurel? 
    Ela se voltou e o viu saindo da mesma limusine preta que, um ms antes, levara-a da sanidade ao delrio. De repente, o vento pareceu ficar mais forte. Com a 
viso embaada, sentiu as pernas fracas. 
    Estava caindo, caindo... e s os braos de Damian poderiam lev-Ia  segurana. 
    
    
    CAPTULO SETE
    
    Que tipo de homem queria uma mulher que j deixara claro que no o queria? 
    S um homem muito idiota, e Damian nunca se considerara como tal. 
    No obstante, quatro semanas aps Laurel Bennett ter dormido em seus braos e ento sado de sua vida, ainda no conseguira esquec-Ia. 
    Sonhava com ela, sonhos ardentes, erticos, do tipo que tivera na adolescncia. Pensava nela nos momentos mais inesperados do dia. Ao tentar purgar a mente e 
a carne envolvendo-se com outra mulher, no dera certo. Durante aquele ms, j havia levado para jantar meia dzia das mulheres mais bonitas de Nova York e fizera 
todas encerrarem a noite confusas, decepcionadas e sozinhas. 
    Agia estupidamente e isso o irritava. No era homem de perder tempo lamentando oportunidades ou sonhos perdidos, conforme a crena que o norte ara desde a infncia. 
Por que mudar agora? Laurel correspondia ao que, no mundo das finanas, chamavam, de caso perdido. Uma bela mulher, de corpo espetacular e corao de gelo. Ela o 
usara do jeito que ele usara outras mulheres no passado. 
    Por que no conseguia tir-Ia da cabea? 
    Atormentava-se com essa pergunta sem resposta no momento em que a limusine estacionava diante do arranha-cu que abrigava suas empresas. De incio, mal acreditara. 
Mas no era alucinao. Laurel saa do prdio vizinho, mais linda do que nunca. 
    Na calada, ficou meio sem ao. Deveria esperar que ela o visse? Na verdade, no tinha nada a lhe dizer, no entanto, queria falar-lhe. Bolas, queria mais do 
que isso. Queria ir ao encontro dela, tom-Ia nos braos e acariciar-lhe os lbios at que ... 
    Mas havia algo errado. Plida, ela caminhava hesitante em meio aos pedestres apressados que ameaavam atropel-Ia. 
    Ela estava chorando! 
    - Laurel? 
    Ela no ouviu. 
    Ele chamou mais alto: 
    - Laurel? 
    Ela levantou o rosto e o viu. 
    Por um segundo, ele acreditou que ela se alegrara, mas ento ela arregalou os olhos, ficou ainda mais plida e murmurou o nome dele como se fosse uma obscenidade. 
    Ele contraiu a boca. Se era assim, que fosse, para o inferno... Cus, ela parecia estar desmaiando! 
    - Laurel! 
    Damian avanou entre os transeuntes e segurou-a nos braos antes que casse. 
    Fraca, ela murmurou qualquer coisa enquanto ele a mantinha junto ao corpo. 
    - Est tudo bem, Laurel. Vou ajud-Ia. Ela o fitava, mas parecia no focalizar. - Damian? 
    Aquele murmrio cortou-lhe o corao. Era estava frgil como cristal. Ela era alta para uma mulher e ele nunca imaginara t-Ia assim to vulnervel em seus braos. 
    - Damian, o que aconteceu? 
    - Eu no sei! - Ele falara mais rspido do que pretendera e procurou se abrandar. - Eu estava saindo do carro quando vi voc a ponto de desmaiar. 
    - Desmaiar? Eu? No diga bobagens. Nunca desmaiei em toda a minha... - A cor voltou-lhe s faces ao lembrar-se do mdico e do diagnstico. Apertou os olhos. 
- Oh, no... 
    Damian afligiu-se. 
    - O que foi? Est se sentindo mal outra vez? 
    Laurel respirou fundo e reabriu os olhos. Damian parecia zangado. Era compreensvel. Esperara nunca mais v-Ia e l estava, amparando-a no meio de uma calada 
movimentada, como um cavaleiro assistindo a contragosto sua donzela perturbada, com o detalhe de era ele o motivo de sua perturbao! Se nunca houvesse pousado os 
olhos nele, se nunca houvesse sado para jantar com ele se nunca houvesse se deixado seduzir por ele... 
    No era verdade. Ele no a seduzira. Ela fora para a cama com ele por vontade prpria. Ansiosamente. Mesmo agora, sabendo que seu mundo jamais voltaria a ser 
o mesmo, no importava o que decidisse, presa aos braos dele sentia-se, sentia-se... 
    Rgida de repente, apoiou-se no peito duro a fim de se desvencilhar. - No vou desmaiar de novo, no. J estou melhor. Pode me por no cho.
    - No concordo. 
    - No seja ridculo! 
    Os transeuntes observavam-nos curiosos. Mesmo em Nova York, um homem com uma mulher nos braos no meio de uma calada cheia de gente chamava a ateno. 
    Mantendo-a firme nos braos, Damian comeou a abrir caminho de volta ao prdio comercial de onde Laurel acabara de sair. 
    - Para onde est me levando? - protestou ela. 
    - Deve haver dezenas de consultrios mdicos aqui. Vou entrar no primeiro que vir e... 
    - No! - exclamou Laurel, em pnico. - No preciso de mdico. 
    -  claro que precisa. As pessoas no passam mal no meio da rua sem uma causa. 
    - Mas eu sei a causa.  que... estou de dieta. Preciso emagrecer dois quilos em dois dias. 
    Damian olhou-a incrdulo. Dois quilos? Ela lhe parecia perfeita, macia e com todas as curvas nos lugares certos, exatamente como lhe aparecia nos sonhos todas 
as noites. 
    - Voc no precisa perder dois quilos. 
    - Os fotgrafos no vo concordar com voc. 
    Ele no pde evitar um sorriso malicioso. 
    - Talvez no a tenham visto com a mesma intimidade que eu. Laurel enrijeceu-se outra vez. 
    - Vejo que continua o cavalheiro perfeito, Damian. Agora, pela ltima vez, ponha-me no cho! 
    - Como queira. - Ele estacou no meio do saguo e colocou-a de p no piso de granito, mas segurou-a pelo cotovelo. - Vamos embora, ento. 
    Ela tentou se libertar, em vo. 
    - Vamos embora?! Para onde? Damian, por que no me deixa em paz? 
    Sem lhe dar ouvidos, ele quase que a arrastou para fora do prdio. A limusine permanecia estacionada junto ao meio-fio. O chofer Stevens segurava a porta aberta, 
como se estivesse acostumado a auxiliar o patro no seqestro de mulheres na rua. 
    - Entre no carro, por favor, Laurel - pediu Damian, sempre segurando-a pelo cotovelo. 
    Ela olhou-o furiosa, sabendo que a nica alternativa era fazer um escndalo. E ela detestava escndalos. 
    Acomodou-se no banco traseiro da limusine, logo seguida por ele. 
    - Como se atreve a me tratar dessa maneira? - questionou Laurel, quando o carro se ps em movimento. - Como se eu fosse uma mercadoria qualquer, que voc pode 
levar para onde quiser? 
    A limusine avanava lentamente em meio ao trnsito congestionado. - Imagine! - desdenhou Damian. - Voc no, passa de uma mulher obcecada por emagrecer, prestes 
a se matar de fome ou cair na rua e bater a cabea, o que acontecer primeiro. 
    Laurel emitiu fascas pelos olhos. 
    - Quer parar? Eu s tive um pouco de tontura, mais nada. Damian olhou-a convencido. 
    -  viso de minha pessoa! 
    Ela desdenhou: - No seja pretensioso! 
    No trocaram mais uma palavra sequer durante todo o trajeto at o apartamento de Laurel. Assim que a limusine estacionou, ela abriu a porta e saltou antes que 
Damian ou o chofer tivessem tempo para ajud-Ia. 
    - Obrigada pela carona. Gostaria de dizer que foi um prazer rev-Io, mas para que mentir? 
    - Laurel, estou emocionado - retrucou Damian, sarcstico. 
    - E lembre-se do que eu disse: voc no precisa perder dois quilos. 
    - Falou o especialista! 
    - Quando acabar a dieta, aparea em minha cobertura. No sabe o que perdeu da ltima vez. Caviar, pato, sufl... 
    Caviar, gorduroso e salgado. Pato, cheio de gordura sob a pele. 
    Sufl de chocolate, coberto com creme de leite batido... 
    Laurel sentiu o estmago virar-se do avesso. Oh, no, por favor, no... O pouco que ela ingerira naquele dia despejou-se na calada. 
    Zonza, ouviu Damian saltar da limusine pela outra porta, apressado em acudi-Ia. Ele a segurou com firmeza pelos ombros enquanto seu estmago continuava a se 
revirar. Quando os espasmos cessaram, apoiou-se nele, envergonhada e to enfraquecida que no podia dispensar o conforto que ele oferecia. 
    - Desculpe-me... - Murmurou baixinho. 
    Damian a fez voltar-se para ele, tirou um leno do bolso e enxugou-lhe a testa suada e a boca. A seguir, ergueu-a nos braos e tomou a escadaria rumo a seu apartamento. 
    Laurel no tinha foras para protestar. Quando ele lhe pediu a chave, entregou-lhe a bolsa pequena. Assim que ele a pousou no sof da sala, deixou-se afundar 
nas almofadas. Ele descalou-lhe os sapatos, abriu-lhe os botes superiores do vestido e cobriu-lhe as pernas com uma manta. 
    Damian despiu o palet, atirou-o numa cadeira e foi para a cozinha. Laurel ouviu-o abrir a geladeira e imaginou seu espanto ao ver o que continha. Devido ao 
enjo constante, no fizera compras nem cozinhara muito ultimamente. Com sorte, talvez ele encontrasse uma lata de refrigerante... 
    Era o que Damian tinha nas mos ao voltar. 
    -  gasoso, mas vai lhe fazer bem. Tome um golinho de cada vez. 
    Mais uma ordem, s que ela no tinha foras para contrariar. 
    Obedeceu. 
    - Havia um experimento qumico na sua cozinha - comentou 
    Damian, enquanto ela sorvia a bebida devagar. - Um o qu?! 
    - Parecia um aliengena na bancada junto  pia. 
    Laurel riu e recostou-se. 
    - Ah, minha massa de po! 
    - Era isso? Espero que no se importe, mas joguei fora. Tive a impresso de que logo tomaria conta do apartamento.
    - Obrigada. 
    - Como se sente? 
    - Melhor - Laurel bocejou, esforando-se para manter os olhos abertos. - Devo ter comido algo estragado. 
    - Feche os olhos e descanse um pouco - sugeriu Damian. 
    - No estou cansada. 
    - Est, sim. 
    - Damian, pare de bancar o sabe-tudo ... 
    Laurel deixou a cabea pender e adormeceu. 
    Damian levantou-se. No, no era um sabe-tudo, mas parecia-lhe que uma mulher em dieta de emagrecimento dificilmente comeria algo capaz de lhe fazer mal. Ainda 
mais quando essa mesma mulher tinha na bolsa um carto com os dizeres: Doutora Vivian Glassman, Ginecologista e Obstetra. 
    Talvez no significasse nada. Todo mundo vivia recebendo cartes e guardando na bolsa e nos bolsos e, mesmo que Laurel houvesse se consultado com aquela mdica 
naquela dia, o que provava? Toda mulher devia submeter-se a check-ups ginecolgicos regularmente. 
    Bateu os dedos sobre o carto. Pouco antes, ao voltar da cozinha e ver o rosto de Laurel, uma idia ocorreu-lhe. 
    Ao longo das ltimas semanas, sonhara com Laurel todas as noites, revivendo as poucas horas que passaram nos braos um do outro. O fogo, a ternura, recordava 
cada sensao. Agora, porm, outro detalhe chamava-lhe a ateno, um que fazia suas entranhas se contrarem. 
    Em nenhum momento daquela longa noite selvagem, lembrara-se de usar o preservativo. 
    Jamais se portara to louca e irresponsavelmente. Era como  se houvesse se intoxicado, inebriado pelo cheiro da pele de Laurel, pelo gosto de sua boca. Ele no 
usara o preservativo. Ela no usara o diafragma. Agora, enjoada e abatida; ela consultava uma mdica obstetra. 
    Bem, havia a possibilidade de Laurel estar tomando plulas anticoncepcionais. 
    Estava na hora de obter algumas respostas. Respirou fundo e foi usar o telefone da cozinha. 
    
    Laurel despertou aos pouquinhos. 
    Estava no sof da sala. J era noite, mas algum acendera o abajur. 
    Quem? Damian. 
    Ele estava sentado na cadeira logo ali, o rosto duro como pedra. - Como se sente? 
    Laurel avaliou a si mesma. Seu estmago roncava, mas se aquietara. 
    - Bem melhor. - Afastou a manta e ergueu o tronco, ponto os ps no cho. - Obrigada por tudo, Damian, mas no precisava ter ficado a enquanto eu dormia. - O 
silncio dele afligiu-a. Havia algo errado. - Que horas so? - indagou, tentando aliviar a tenso. - Devo ter dormido um tempo... 
    - Quando pretendia me contar? 
    Laurel sentiu o corao se descompassar. - Contar o qu? . 
    Levantou-se, e ele fez o mesmo, aproximando-se dela. Onde estavam seus sapatos de salto alto? Assim, mais baixa do que ele, ficava em desvantagem. 
    - Talvez no tivesse inteno de me contar - considerou ele, severo. - Era esse o seu plano? 
    - No sei do que voc est falando - declarou Laurel, tentando ultrapass-Io. - E no estou com disposio para adivinhaes. 
    Damian a deteve pondo a mo em seu ombro. 
    - E eu no estou com disposio para mentiras. Ela o encarou raivosa. 
    - Acho melhor voc ir embora. 
    - Voc est grvida. 
    Grvida. Grvida. A palavra parecia ecoar pela sala. 
    - No sei do que voc est falando. 
    -  melhor voc me contar a verdade. 
    Laurel desvencilhou-se dele e apontou para a porta. 
    -  melhor voc dar o fora daqui. 
    - Esse filho  meu? 
    Laurel bufou. 
    - No existe nenhum filho. No sei de onde tirou essa idia, mas ... 
    - Com quantos homens esteve naquela semana, alm de mim? Laurel olhou-o incrdula. 
    - Saia j daqui! 
    - Repito: esse filho  meu? 
    Ela o encarou, os lbios trmulos. No! quis gritar. Estive com dez homens naquela semana. Com cem. Com mil. 
    - Responda! - Colrico, Damian agarrou-a pelos ombros e sacudiu-a. -  meu? 
    Laurel no conseguiria mentir. 
    -  - respondeu, num sussurro. -  seu. 
    Damian ficou imvel por alguns segundos. Ento, conduziu-a ao sof. 
    - Sente-se, Laurel. 
    Ela o encarou e estremeceu. Deu um passo atrs e, ao sentir a borda do sof junto s pernas, deixou-se cair como uma boneca de pano. 
    - Como foi que descobriu? 
    Ele esboou um sorriso e tirou do bolso o carto da mdica, atirando-o em seu colo. 
    - A dra. Glassman contou a voc? Ela no tinha esse direito!  Ela ... 
    - Ela no me contou nada - declarou Damian. - Mas ao mesmo tempo contou tudo. 
    Laurel balanou a cabea. - No entendo. 
    - Vi o carto em sua bolsa ao pegar a chave, telefonei para o consultrio e disse  atendente que era um "amigo" seu preocupado com sua sade. 
    Laurel enrubesceu at as orelhas. Cara numa armadilha de Damian. 
    - Sua mdica  uma profissional sria - elogiou ele. - Foi muito discreta. Admitiu apenas conhecer voc.  Disse que somente voc poderia me informar sobre suas 
condies fsicas. 
    Laurel empalideceu. Ento, voc no sabia! Blefou! Induziu-me a... 
    - Somei dois e dois, isso  tudo. Fiz uma pergunta e voc respondeu. 
    - No foi assim! - contrariou Laurel, indignada. - Voc disse que sabia que eu estava ... 
    - Perguntei se o filho era meu. - Ameaador, ele se aproximou dela, pousou as mos em seus ombros e obrigou-a a fit-lo nos olhos faiscantes. - Meu filho! O 
que pretendia fazer, Laurel?  Entrega-Io  adoo? Abort-lo? 
    - No! 
    O grito lhe escapara da garganta, mas era verdade. No abriria mo daquela vida dentro dela. Queria o beb, de todo o corao e alma, quisera desde o instante 
em que a mdica confirmara sua gravidez. 
    - No - repetiu, mais controlada. - No vou fazer nada disso. Vou ter o beb e cri-lo. 
    Damian sorriu desdenhoso. 
    - Ah, voc vai cri-lo. Posso saber como vai criar  um filho sozinha? 
    - Voc ficaria espantado em saber o quanto as mulheres se tornaram independentes! - replicou Laurel. - Somos to capazes de criar filhos quanto de d-l os  
luz!
    - Uma criana vai atrapalhar essa vida desregrada que voc leva! 
    - Voc no sabe nada da minha vida! 
    - Ora, uma mulher que dorme com estranhos no pode ser uma me adequada para um filho meu! 
    Laurel golpeou-o no ombro. 
    - Seu hipcrita! Quem  voc para me julgar? Ns dois geramos este beb, Damian, dois estranhos na cama por uma noite! 
    Ele expressou superioridade. -  diferente. 
    A Laurel, bastava. Levantou-se com mpeto. 
    - Faa-nos um favor, e d o fora daqui. Fora da minha vida. No quero nunca mais ver a sua cara! 
    - Eu desapareceria com prazer, mas voc se esquece de que essa vida que carrega pertence a mim. 
    -  uma criana, Damian, e uma criana no pertence a ningum. Imagino que seja difcil para voc entender, mas uma criana no  uma mercadoria. 
    Damian olhou-a detidamente, refletindo. Aquela discusso no os levaria a nada. O fato era que Laurel estava grvida de um filho seu. Um filho. Sempre pensara 
que criar Nick seria o mais perto que chegaria da paternidade. Agora, o destino e uma mulher que o perseguia em sonhos uniam-se para lhe apresentar uma nova realidade. 
    - Quero meu filho - declarou, simplesmente. Laurel permaneceu impassvel. 
    - Como assim? 
    - Essa criana  minha e no vou abrir mo de meus direitos sobre ela. 
    Direitos?! Laurel sentiu as pernas fraquejarem. De tempos em tempos, os noticirios anunciavam que pais haviam reclamado, e ganho, a custdia de seus filhos. 
No era uma deciso judicial comum, mas o rico e poderoso Damian Skouras com certeza arrancaria o filho dela num estalar de dedos. 
    Acalme-se, pediu a si mesma. No o deixe perceber o quanto est amedrontada. 
    - Damian, podemos discutir isso noutra hora? Estamos nervosos. 
    - No h nada a discutir. Estou lhe dizendo que vou assumir meu filho. 
    - Bem... no estou me opondo a que voc assuma seu papel. Alis, a dra. Glassman at comentou como  importante que a criana conte com o pai e a me. Tenho 
certeza de que podemos chegar a um acordo. 
    - Vai ceder os fins de semana? Laurel mordiscou o lbio. 
    -Vou. 
    Ele sorriu falso. 
    - Quanta generosidade Laurel. 
    - Vamos montar um esquema que agrade a ambos. 
    - J lhe contei que cresci sem pai? 
    Laurel ficou constrangida. 
    - Damian, no sei qual era a situao entre seus pais,  mas... 
    - Eu preferia ter nascido bastardo. 
    - Damian. 
    - No boto f no casamento, Mas, quando h filhos envolvidos, boto ainda menos f no divrcio. 
    - Bem, nosso caso  totalmente diferente - observou Laurel. 
    - J que no somos casados, no vai haver divrcio... 
    - Meu filho merece algo mais - interps Damian. - Ele, ou ela, merece um pai, uma me e estabilidade. 
    - Tambm acho. Por isso, concordo em que voc assuma seu papel. 
    - Ah, voc concorda? 
    Laurel arrependeu-se da pssima escolha de palavras. 
    - Eu me expressei mal. No vou impedi-Io de ver meu... nosso filho. Eu juro. 
    - Ah, voc jura? - Damian era puro sarcasmo. - Que comovente. Acha que devo confiar na palavra de uma mulher que sequer tencionava contar-me que estava grvida? 
    Laurel perdeu a pacincia. 
    - Bolas, Damian, por que no diz logo o que quer? 
    - Serei breve e conciso: no pretendo renegar meu filho, nem lhe dar meu nome apenas, e no quero saber de acordos firmados entre advogados. 
    - Pois bem, sem advogados, nem juzes - concordou Laurel. 
    - Vamos  conversar, como duas pessoas civilizadas, e entrar num acordo que satisfaa a ambos.   Aaaiiii! - gritou, quando ele a agarrou com fora pelos pulsos. 
- Damian, voc est me machucando! 
    - Pensa que sou idiota? - Ele mantinha o rosto transtornado a milmetros do dela. - Imagino o tipo de acordo que seria do seu agrado. 
    Laurel estava exausta. 
    - Damian, no sei do que est falando... 
    Ele a calou colando a boca  dela, iniciando um beijo que ameaou tirar-lhe a sanidade. Quando ele finalmente se afastou, ela estava trmula. De dio. De raiva. 
E de desalento, por descobrir que o beijo dele ainda lhe provocava um desejo avassalador. 
    - Sempre acreditei que s se deve ter filhos na santidade do casamento - declarou  Damian. - Um paradoxo, uma vez que o casamento, para mim, sempre pareceu uma 
farsa. De qualquer forma, no vejo alternativa neste caso. - Ergueu a mo para afagar-lhe os cabelos, mas desistiu: - Vamos nos casar daqui a uma semana.
    Laurel sentiu o sangue fugir-lhe do rosto. 
    - Vamos o qu?! 
    - Vamos nos casar, ter o nosso filho e cri-Io juntos. 
    - Voc est louco! No vou me casar com voc nunca! Ouviu bem? Nem em um milho de anos! 
    - Voc me acha arrogante, egocntrico, mas  melhor que saiba: sou Damian Skouras. Disponho de recursos que voc nem imagina. Oponha-se a mim, e s ganhar pssima 
publicidade para si mesma, sua famlia e nosso filho! 
    Trmula, Laurel encarou-o por um segundo e ento se libertou dele. Enxugou as lgrimas quentes com as costas da mo. 
    - Odeio voc, Damian! Sempre vou odiar! 
    Parecendo divertir-se, ele pegou o palet e pendurou-o no ombro. 
    - Por mim, tudo bem, querida Laurel. Pelo que sei do matrimnio, esse seu sentimento  normal. 
    Assobiando, abriu a porta e foi embora. 
    
    
    CAPTULO OITO
    
    Cinco dias depois, Laurel e Damian aguardavam, o mais afastados possvel um do outro, na antesala da cmara de um juiz numa cidade a norte de Nova York. 
    O juiz Weiss era amigo de um amigo de Damian. 
    - No me interessa - cortara Laurel, quando ele comeara a explicar a conexo. 
    S queria que tudo aquilo se acabasse logo. 
    No convidara ningum para a cerimnia. No contara  amiga Susie, nem  prpria irm Annie, que ia se casar. Com que cara confessar que cometera o erro feminino 
mais antigo do mundo e, agora, classicamente, pagaria o preo de desposar um homem que no amava. 
    Conclura que seria melhor dar a notcia quando o fato j estivesse consumado. Diria que ela e Damian haviam cedido a um impulso passional. Susie no se deixaria 
lograr, mas Annie, romntica como era, provavelmente ficaria exultante. 
    Olhou para Damian. Ele estava de costas para ela, olhando pela janela. Fazia dez minutos que observava o trnsito na rua, como se fosse a coisa mais interessante 
do mundo. 
    Compreendia-o, pois estivera contemplando o retrato de um homem de costeletas e beca judicial. Era uma maneira de pensar em algo alm do que estava para acontecer. 
    Laurel respirou fundo. Ainda havia tempo. Talvez conseguisse convenc-Io da loucura daquele plano, que no seria bom para ele, nem para ela, nem para o beb. 
    - Sr. Skouras? Srta. Bennett? 
    Laurel e Damian olharam para a mulher grisalha  porta da cmara do juiz. 
    Laurel apertou as mos em torno da bolsa. Era como entrar no consultrio de um dentista. Sentia o corao descompassado e as mos suarentas. 
    S que no se tratava do consultrio de um dentista, e no ia obturar um dente. Estava ali para entregar sua vida a Damian Skouras. 
    - Laurel? - chamou Damian. Ela o viu aproximar-se dela. 
    - O juiz mandou nos chamar - informou ele. 
    - Eu ouvi. 
    Laurel sentiu uma nusea, mas no devido  gravidez. Estranhamente, seu mal-estar cessara no dia em que Damian descobrira sobre seu estado. Estava apreensiva 
quanto ao passo que estava para dar. 
    No posso. No posso!  
    - Damian... acho melhor conversarmos. 
    Ele lhe segurou o pulso com fora, como que advertindo, e sorriu polidamente  funcionria. 
    - Por favor, diga ao juiz que entraremos num minuto. Assim que a porta se fechou, Damian olhou severo para Laurel. - J conversamos sobre isto. No h nada mais 
a dizer. 
    - No discutimos nada! Voc baixou decretos e eu abaixei a cabea, obediente. S que no vai dar certo. Acho que... 
    - Laurel! - cortou ele, bravo. - Estamos numa enrascada e, como sou o responsvel por ela, a soluo tambm cabe a mim.  No h outra alternativa. 
    - Que seja do seu gosto - observou Laurel. - Ser que no pode ser razovel... 
    - E aceitar o que voc considera adequado? 
    - . No. Pare de torcer as minhas palavras! - Laurel passou a mo na testa. - Pense.  No temos nada em comum. Mal nos conhecemos. Nem sequer gostamos um do 
outro, mas voc insiste em... em que eu me case com voc, me torne sua mulher. 
    - Exatamente. Laurel enfureceu-se. 
    - Voc  um dspota! Tem que ser tudo a seu modo, no ? 
    A porta da cmara do juiz abriu-se novamente. - Sr. Skouras? - chamou a funcionria. - O juiz est com a agenda meio apertada esta manh. Se o senhor e a srta. 
Bennett no se importarem... 
    - Claro! - exclamou Damian, e olhou para Laurel - pronta, querida? 
    Ele Sorria, mas seu olhar era de advertncia. Faa o que estou mandando, ou sofra as conseqncias. 
    Laurel recomps-se, ergueu o queixo e aquiesceu. - Estou pronta. 
    A cmara do juiz era uma sala grande, com mveis de carvalho e paredes lambrisadas com uma madeira no mesmo tom. Flores murchas num bule de caf sobre a lareira 
contribuam para um ambiente pesado, cujo odor de cigarro o antigo aparelho de ar condicionado no conseguia eliminar. 
    - Sr. Skouras - saudou o juiz, levantando-se atrs da escrivaninha. - Srta. Bennett. Que belo dia para um casamento!  
    De fato, l fora o sol brilhava e nuvens brancas deslocavam-se sem  pressa pelo cu azul-claro. Nada a ver com aquela cmara abafada. 
    Toda mulher sonhava casar-se num lugar cheio de luz, cercada de flores frescas e amigos, com um homem cheio de amor para lhe dar. 
    Se ao menos Damian a quisesse de verdade, se a amasse... Mal disfarou um soluo. 
    
    Damian olhou-a compreensivo. Ela no queria se casar. Mas a vontade dela no importava. Somente o filho deles importava. Tinham que se casar, pelo bem da criana. 
Era a coisa certa a fazer. 
    Se ao menos ela o quisesse, se recordasse o que haviam compartilhado naquela noite... 
    -  um prazer conhec-los e oficializar sua unio - dizia o magistrado. 
    - Obrigado por nos encaixar em sua agenda, Sua Excelncia - replicou Damian. - Imagino como foi difcil, mas resolvemos to de repente... 
    O juiz Weiss riu. 
    - Sei como so essas coisas, meu rapaz. - Animado, esfregou as mos e pegou um livro preto j bem gasto. - Bem, podemos comear? 
    - No! - gritou Laurel. O juiz apagou o sorriso. 
    - Algum problema, srta. Bennett? 
    - Problema nenhum - interps-se Damian. -  que decidimos s pressas e minha noiva... est tendo um ataque de nervos, Sua Excelncia. - Enlaou-a pela cintura 
e olhou cmplice para o homem mais velho. - Sabe como ficam as mulheres no dia do casamento... 
    - Damian... 
    Ele a calou com um beijo na boca. Foi um beijo rpido, gentil, pouco mais que um roar de lbios. 
    Se ele a houvesse beijado profundamente, introduzindo a lngua sedosa, fazendo-a recordar a paixo que os consumira, tudo teria se acabado naquele instante. 
    Mas no. Ele a beijou do jeito que um homem beija a mulher amada, com uma ternura que lhe entorpeceu os sentidos. 
    - Tudo vai dar certo, kali mou - murmurou ele. Depositou um beijo na palma de sua mo e fechou-a. - Confie em mim. 
    O juiz pigarreou. 
    - Esto prontos agora? 
    - Estamos - declarou Damian. 
    A cerimnia teve incio, sem floreios, mas no muito diferente daquela que ambos haviam presenciado menos de cinco semanas antes, numa igrejinha em Connecticut. 
    O juiz falou de companheirismo e amor, da seriedade dos votos, de compromisso e respeito. 
    Por fim, as palavras que Laurel temia: 
    - Laurel Bennett, aceita Damian Skouras como seu legtimo esposo? 
    Um n na garganta a impedia de responder. O juiz e Damian olharam para ela. 
    - Desculpe-me... - murmurou ela. - No ouvi bem... O juiz sorriu e repetiu: 
    - Perguntei se est preparada para tomar Damian Skouras como seu legtimo esposo. 
    Laurel fechou os olhos. Pensou no beb, no poder de Damian e... no modo como ele a beijara pouco antes. 
    Abriu os olhos. 
    - Sim. 
    
    A limusine aguardava-os junto  calada.
    - Meus parabns, senhor! - cumprimentou o chofer Stevens, ao abrir-lhes a porta. - Felicidades, senhora!
    Felicidades?  Laurel teve vontade de rir.  E de chorar.  Ora, o coitado devia pensar que se tratava de uma unio por amor.
    - Obrigada, Stevens - murmurou, desanimada.
    No banco traseiro do carro, Laurel cruzou os braos, olhando fixo  frente.
    Damian parecia satisfeito.
    - Voc se comportou melhor do que eu esperava - comentou.
    - S fiz isso por causa do meu filho - retrucou Laurel, glida. - Caso contrrio, no estaria aqui sentada, levando adiante esta farsa de casamento. 
    - Farsa? - Damian tirou do bolso uma folha de papel dobrada. - Ns nos casamos, Laurel. Voc  minha mulher e eu sou seu marido. 
    Ela o fitou com olhos cheios de dio. 
    - Podemos at ser, Damian, mas em meu corao, que  o que importa, voc jamais ser meu marido! Voc me forou a este casamento, mas no pode mudar meu sentimento. 
    Damian acariciou-lhe o rosto e enterrou os dedos em seu cabelo presos. Os grampos comearam a afrouxar e se soltar.
     - Pare - pediu ela, amuada. 
    - Fica mais bonito assim - opinou ele. 
    Era difcil para Laurel respirar, com Damian to prximo. Pensou em afast-Io; mas ento lembrou-se daquela noite fatdica em que o agarrara pelo pescoo e o 
beijara. 
    Gostaria de beij-Io de novo daquele jeito... 
    - Minha mulher - murmurou Damian, detendo a mo em seu pescoo. Sob os dedos, sentia-lhe a pulsao como um pssaro encurralado, confirmando sua suspeita de 
que ela no estava to impassvel quanto queria fazer crer. - A idia lhe  to insuportvel assim? 
    - Aprendi uma coisa no incio de minha carreira de modelo - replicou Laurel. - Nunca faa uma pergunta a menos que queira mesmo ouvir a resposta. 
    Ele roou o polegar no lbio inferior dela. 
    - No - murmurou Laurel, ofegando levemente. 
    Damian sentiu o corpo se aquecer. Ela o queria, estava escrito em seus olhos, a despeito do que dizia. 
    Podia t-Ia naquele instante, retribuindo seus beijos, entregando-se em meio a suspiros enquanto ele a despia. 
    Inclinou o rosto e beijou-lhe o pescoo esguio. Ela exalava um aroma de sol e flores, de chuva de vero. Febril, afastou-lhe o decote e beijou-Ihe a pele fina, 
mais macia do que seda, mais tpida do que mel fresco. 
    - Laurel ... - murmurou. 
    Afastando-se um pouco, fitou-a no rosto. Seus olhos expressavam confuso e desejo. 
    Mais uma vez, roou o polegar pelos lbios carnudos. Quando ela os entreabriu, introduziu-o no calor que continham. Ela deixou escapar um gemido, e ele sentiu 
a lngua quente em torno do seu dedo. 
    Laurel pousou as mos em seus ombros e, ento, abraou-lhe o pescoo. Ele grunhiu e a fez deitar-se no assento. 
    Cus, como a desejava!  E a possuiria. Ela era sua mulher e o queria tambm. Aquela mulher sexy nunca mais teria outro homem. 
    Que escolha tinha ela seno quere-l o? 
    Damian afastou-se de repente, deixando-a deitada. 
    - Viu? - gabou-se, desdenhoso. - No vai ser to ruim ser minha mulher. 
    Laurel enrubesceu. 
    - V para o inferno - murmurou, com voz trmula. Damian voltou-se para a janela e apreciou a paisagem. Tinha a leve impresso de j estar no inferno. 
    
    Damian estava admirado. 
    Impassvel, Laurel at agora no indagara para onde estavam indo. Ele a informara de que viajariam para o exterior aps o casamento, mas ela nem piscara antes 
de embarcar no jatinho da Skouras International.  
    Uma vez acomodada no assento, ela travou o cinto de segurana, pegou uma revista e mergulhou em sua leitura, a qual interrompeu apenas para recusar, polidamente, 
o lanche oferecido pela aeromoa.  
    Mas nem mesmo uma boa atriz como Laurel era capaz de dissimular indefinidamente. Aps quatro horas de vo, ela baixou a revista e se mexeu no assento. 
    -  uma prova de resistncia? Queria saber quanto tempo eu agentaria antes de perguntar? 
    Damian desviou o olhar da tela de seu microcomputador porttil. 
    - Como? 
    - Basta, Damian. Para onde estamos indo? 
    Ele encerrou o arquivo no qual fingira trabalhar, desligou o microcomputador, guardou-o na pasta de couro e colocou-a de lado antes de responder: - Para o exterior. 
Eu lhe disse ontem. 
    - Voc me disse que tinha negcios para resolver e que eu deveria levar meu passaporte - recordou Laurel. - Acontece que estamos viajando h horas e eu gostaria 
de saber para onde estamos indo. 
    - Para a Grcia - informou Damian. 
    Laurel ficou muda. J estivera na Grcia. Em meio a tanta beleza, sentira-se transportada para uma outra poca, quando as  regras de comportamento entre os sexos 
eram muito diferentes das atuais. 
    - Para a Grcia?! - exclamou, por fim. - Por qu? 
    - Por que no? 
    - No estou com humor para brincadeiras, Damian! Por que estamos indo para a Grcia? 
    Damian tinha vrias respostas, todas razoveis e verdadeiras. Porque tenho uma ilha l, e quero ver os estragos causados por uma tempestade no ms passado, por 
exemplo. Porque tenho negcios pendentes em Creta. Porque gosto do sol quente e da gua azul-safira.
    Mas optou pela mais simples de todas: 
    - Porque nasci l. 
    A reao de Laurel foi a mais inesperada possvel. 
    - No quero que meu filho nasa l! Ele, ou ela, ser cidado americano! 
    Damian divertiu-se. 
    - No vamos ficar tanto tempo.  apenas um lugar tranqilo no qual poderemos nos conhecer melhor. 
    Com isso, espreguiou-se no melhor estilo felino. Disposto a ficar  vontade, despiu o palet, tirou a gravata, desabotoou o colarinho e arregaou as mangas. 
Sua pele, reluzia como ouro  luz suave da cabine, realando os msculos bem torneados. Laura disfarou um arrepio. Apesar do conceito que tinha dele, no podia 
negar que era um belo espcime masculino. 
    E era todo seu. De papel passado. Poderiam reviver aquela noite mgica, nas areias a beira-mar  meia-noite, ou no topo de uma colina erma sob um sol quente. 
Poderia beij-Io na boca e deslizar as mos por sua pele, sussurrando seu nome enquanto ele a afogava em prazer ... 
    - No quero ir para a Grcia! - protestou, em pnico. Seria pedir muito consultar-me antes de fazer seus planos? 
    Damian estudou-lhe o rosto. Ela estava com medo. Dele. Laurel tinha razo. Ele devia t-Ia consultado. Mas lhe parecera to boa a idia de irem para sua ilha, 
Actos. Por algum motivo, queria que ela conhecesse o lugar onde ele perdera o menino que um dia fora e encontrara o homem que se tornou. 
    Sentiu um aperto no corao. 
    - Laurel... - murmurou, e tocou-lhe o ombro. 
    - No toque em mim! - rosnou ela. 
    Damian endureceu-se novamente. Laurel no merecia ser levada a Actos. 
    
    O jatinho pousou numa pequena pista em Creta. Um carro tirou-os de l rapidamente, passando por hotis lotados de turistas e marinas onde se atracavam inmeros 
iates reluzentes. 
    Laurel disfarou um sorriso. Os gregos eram tradicionais navegadores. Um milionrio como Damian devia ter uma embarcao. Logo a conheceu. No era um iate, mas 
um veleiro, bonito e esguio. 
    - Damian? - chamou uma voz masculina. 
    O homem surgira to logo passaram da prancha para o convs. Baixo, magro e careca, tinha barba escura e trajava cala jeans e camiseta listrada. 
    Damian conversou um pouco com ele em grego antes de apresent-Ios. 
    - Laurel, este  Cristos. Ele cuida de Circe para mim, quando no estou. 
    - Ol - murmurou Laurel, ainda mal-humorada. 
    O grego fez algum comentrio e Damian interpretou: - Ele lhe d as boas-vindas e diz que voc  uma Afrodite que criou vida. 
    Nem assim Laurel se animou. 
    - Mesmo? Pensei que Helena  que tivesse sido raptada. Damian no se abalou nem um pouco. Instruindo-a a esperar, desceu  cabine. 
    Esperar, como um animalzinho de estimao. Pois sim! 
    Seguiu rumo  prancha, disposta a desembarcar e passear pelo atracadouro. 
    Cristos imediatamente se colocou em seu caminho. - S vou dar uma volta - explicou ela. 
    - Perdo, senhora, mas no pode. 
    Ora, o homem falava um ingls razovel! E recebera ordens. 
    O que Damian temia, afinal? Que ela se atirasse ao mar e nadasse at o continente? Alis, no era m idia. 
    Com um suspiro, recostou-se  amurada e contemplou o oceano. Tarde demais. Estava presa. 
    
    Laurel mal reconheceu Damian ao rev-Io. 
    Ele estava de cala jeans com as pernas recortadas, camiseta branca e mocassins. 
    No havia dvida quanto a quem estava no comando daquela embarcao. Era Damian, e ele o assumia no dando ordens, mas tomando a iniciativa. 
    No pde deixar de admir-Io ao conduzir o veleiro destramente atravs do canal estreito rumo ao mar aberto. Ao vento agitava-lhe os cabelos escuros, o sol refletia-se 
em seu minsculo brinco, bem como na pele bronzeada. Quando o calor se intensificou, ele despiu a camiseta e jogou-a de lado. 
    Quase sem flego, Laurel lembrou-se do corpo dele nu na noite em que haviam perdido a razo. Como era msculo aquele estranho a quem desposara, forte, poderoso 
e lindo. 
    Uma rajada de vento mais forte afrouxou os grampos que lhe prendiam os cabelos. Ocupou-se em prender de novo os cachos rebeldes. 
    - Voc est bem? - indagou Damian. 
    Laurel fez que sim. Ele estava to prximo que ela podia sentir o cheiro de sol e sal em sua pele, o aroma almiscarado de sua transpirao. Imaginou a si mesma 
beijando-o no pescoo, degustando-o com a ponta da lngua. 
    Ele pousou a mo em seu ombro. - Se sentir-se mal, me avise. 
    - No se preocupe. No sinto mais enjo e a dra. Glassman disse que estou perfeita. Pilote seu barco, no precisa ficar me olhando. 
    Damian observou-a por um segundo. Era incrvel como sua beleza se realara naquele cenrio mitolgico, muito mais do que ele imaginara. Inclinou-se para sussurrar-lhe: 
- Olhar para voc  tudo de que um homem precisa para alimentar a alma. 
    Quando ela o fitou no rosto, ele a puxou pela nuca e beijou-a com mpeto. 
    - Solte os cabelos - pediu, numa pausa, e voltou a beij-Ia. Relutante, concentrou-se de novo no timo. 
    Laurel esperou o corao se acalmar e olhou para Damian, altivo em seu posto de capito. Era assim que devia se sentir uma flor quando suas ptalas se abriam 
sob o carinho do sol. 
    As ltimas palavras dele ainda lhe ecoavam na mente. Solte os cabelos. Ele dissera o mesmo na nica noite em que fizeram amor, pouco antes de despi-Ia, lenta 
e cuidadosamente. 
    Mas aquela noite pertencia ao passado e no significava mais nada. 
    Rgida, ergueu os braos e comeou a prender o cabelo novamente. Mas o vento estava do lado de Damian. Com uma golfada, arrebatou os grampos e lanou-os ao mar. 
    
    
    CAPTULO NOVE
    
    Laurel j estivera na Grcia para fazer uma capa de revista. Fora fotografada numa minscula ilha de incrvel beleza natural. 
    Actos no era to bonita. Em seu pequeno atracadouro em forma de crescente, no havia nenhum iate ancorado, apenas pequenos barcos de pesca. Casinhas caiadas 
de telhados vermelhos abrigavam-se  sombra dos penhascos rochosos pouco alm. Acima de tudo, aves marinhas faziam acrobacias contra o cu azul-claro, chilreando 
estridentes. 
    Dali a pouco, desembarcavam. No per, um velho de bigode aguardava-os junto a uma velha caminhonete meio enferrujada. 
    Damian fez as apresentaes, ajudou o ancio a carregar as .malas e fez questo de pegar o volante, com Laurel a seu lado e o velhinho, chamado Spiro, no banco 
de trs. 
    A caminhonete avanava devagar mas com constncia por uma tortuosa estradinha de terra penhasco acima, por entre agrupamentos de ciprestes e afloramentos de 
rocha cinzenta. Passaram por vrias casas, cada vez mais afastadas uma da outra. Aps algum tempo, j no se viam casas, apenas uma ou outra cabana de pastor. Um 
coro de cigarras animava a viagem em meio ao calor intenso. 
    A estradinha estreitou-se ainda mais. Quando Laurel j imaginava que acabariam nas nuvens, surgiu uma casa. Era de pedras brancas com telhado azul e erguia-se 
sobre um promontrio rochoso de frente para o mar. 
    Tanto a casa quanto o cenrio eram simples, mas de uma beleza gritante. Sem dvida, era a casa de Damian. 
    Fez-se um silncio. sbito quando Damian desligou o motor. 
    Spiro saltou imediatamente e comeou a descarregar a bagagem. 
    Damian apressou a ajud-Io e os dois comearam a discutir, at que o velhinho entrou bufando na casa. 
    - O que houve? - quis saber Laurel. 
    - Apenas lembrei a ele que j est com mais de oitenta e cinco anos e no deve se exceder - explicou Damian. - Toda vez que venho aqui, brigamos. 
    - Ele foi chamar algum para ajudar? 
    - No h mais ningum na casa, a no ser Eleni, a caseira. - Damian comeou a descarregar as malas, empilhando-as na grama, os msculos retesando-se sedutoramente 
sob a malha da camiseta. - E ento? Acha que sobrevive uma semana sozinha comigo nesta casa? 
    Uma semana sozinha com ele? Ela no o satisfaria declarando que fora bem-sucedido em faze-Ia esquecer alegremente tudo o que lhe era seguro e familiar. 
    - Bem, no  Southampton, mas deve ter gua quente e luz eltrica pelo menos. 
    Inabalvel, Damian ergueu parte da bagagem e seguiu para a porta frontal da casa. 
    - No vai passar necessidade, querida - garantiu. - No somos to selvagens quanto imagina. 
    O interior da casa era de um frio glacial, comparado ao calor desprendido pelas rochas ao sol. Piso de alvo mrmore estendia-se ao encontro das paredes pintadas 
de branco. Ventiladores de teto giravam ociosos. 
    Damian deixou as malas no cho e ps as mos nos quadris. 
    - Eleni? 
    Ouviu-se uma porta distante e logo surgiu uma mulher magra, de meia-idade, de cabelos e olhos castanho-escuros. 
    Damian disse-lhe algumas palavras em grego e ento voltou-se para Laurel. 
    - Eleni no fala ingls, portanto, no perca seu tempo tentando ganh-Ia como aliada. Ela vai mostrar seu quarto e atender as suas necessidades. 
    Aliviada por no ser Damian a conduzi-Ia, Laurel seguiu a empregada escadaria acima. Gostou do quarto amplo e bem decorado, com banheiro contguo. 
    - Obrigada - disse a Eleni. - Efeharist. 
    Era a nica palavra em grego da qual Laurel se lembrava. 
    A caseira foi embora e Laurel viu-se, enfim, s. Aparentemente, Damian concedera-lhe uma trgua. Deveria estar feliz. 
    Mas, por algum motivo, no estava. 
    Os ciprestes lanavam sombras alonga das sobre a encosta. Logo, seria noite. 
    
    De p no terrao de tijolos, Damian contemplava o mar. Sabia que deveria estar se sentindo exausto. Fora um longo dia, na esteira de uma longa semana, aquela 
que iniciara imaginando que jamais reencontraria Laurel e terminara tomando-a como esposa. 
    Sua esposa. 
    Tomou um gole de ouzo gelado, deliciando-se com a sensao da bebida sabor de anis garganta abaixo, um dos poucos prazeres em todo aquele dia. 
    Ainda mal acreditava. At pouco tempo atrs, sua vida seguira um curso determinado, tendo como centro seu imprio empresarial. Ento, num piscar de olhos, ganhava 
uma esposa, cujo desprezo e frieza provocavam-lhe uma instabilidade arterial semelhante  dos vulces que jaziam naquelas ilhas. 
    Laurel no gostara de sua casa. Devia ter previsto. Afinal, tratava-se de uma construo simples no meio de lugar nenhum, com pouco mais que eletricidade e gua 
quente como conforto. Laurel era uma mulher da cidade, acostumada ao luxo e devia estar mortificada  com a idia de passar sete dias numa casinha no topo de uma 
colina rochosa defronte ao mar Egeu na companhia do monstro que a forara ao casamento.. 
    Onde estava com a cabea quando decidira leva-Ia ali? Aquilo no era cenrio para lua-de-mel, supondo que fosse haver uma. Spiro, aquele raposo velho, dissera-lhe 
que se casara j no era sem tempo. 
    S que aquilo no era um casamento, era um arranjo, e talvez fosse melhor ter isso em mente. Alis, arranhando-se a superfcie, descobria-se que nenhum casamento 
se dava por amor, mas por desejo, ou por solido, ou pela procriao. Nesse sentido, ele e Laurel estavam adiante no tempo. No havia fingimento na relao entre 
eles. Nada alm da necessidade levara-os quele ponto da estrada. 
    Damian encheu de novo o copo com ouzo. Pensando bem, no tinha do que reclamar. Teria um filho. Ao longo da semana, alegrara-se mais e mais com a perspectiva 
da paternidade. Apreciara cuidar do sobrinho Nicholas, mas o garoto entrara em sua vida j meio crescido. Seria diferente segurar um beb nos braos, sabendo que 
tinha seus genes e que o criaria desde o incio. 
    Sorriu irnico. A despeito de todos os avanos da cincia, um homem ainda precisava de uma mulher para ter um filho. Ou melhor, de uma esposa, tomando-se a atitude 
correta, e Laurel parecia-lhe mais que adequada. 
    Era bonita, inteligente e sofisticada. Passara a vida entre os ricos e famosos. De certa forma, era um deles. Desempenharia brilhantemente o papel de anfitri 
nas festas e jantares que ele promovia com freqncia e, sem dvida, seria uma boa me para o filho de ambos. 
    Quanto ao resto... Bem, o que conseguissem fazer na cama manteria a ambos satisfeitos. Ela no o rejeitaria para sempre. Apesar dos protestos, ela o desejava. 
Era uma mulher apaixonada que gostava de sexo. E que pertencia a ele. Se ela um dia se atrevesse a matar a sede com outro homem... 
    O copo estilhaou-se em sua mo. Com um gemido de dor, deixou os cacos carem no cho. 
    Enquanto se afobava para tirar o leno do bolso, algum segurou-lhe o pulso da mo ferida. 
    - Deixe-me ver isso - ordenou Laurel. 
    Damian olhou-a, zangado por ter perdido o controle e por ela t-Io surpreendido nesse estado. 
    Ao v-Ia to linda, porm, seu humor melhorou. 
    De camisola longa e transparente, ela teria passado por Afrodite. Quando ela se abaixou para examinar-lhe a mo ferida, seus cabelos soltos exalaram um aroma 
fresco de xampu. 
    - O corte no parece profundo - tranqilizou ela, enxugando o sangue. - Vamos l para dentro passar uma gua. 
    Damian no queria se mover. O momento era perfeito demais. 
    O corpo de Laurel roando o seu. A respirao dela aquecendo-lhe os dedos... 
    Ela o fitou, curiosa. Os olhos dele estavam to obscuros quanto a noite que espreitava na borda do mar. Ele parecia tenso... 
    De repente, os ombros dele pareciam mais largos sob a camisa de algodo escura. Podia-se ver a artria pulsante em seu pescoo bronzeado, junto ao pomo-de-ado. 
Pela gola aberta, vislumbrava os plos escuros que lhe cobriam o peito musculoso. 
    Era como se uma fenda se abrisse diante dela, aterrorizando-a com sua profundidade incalculvel. 
    - Precisamos lavar e desinfetar o corte - repetiu ela. 
    - Depois - murmurou ele. Com a mo boa, afastou-lhe o cabelo do rosto. - O que quer de mim, kali mou? Diga-me, e farei.  
    Beije-me, pensou Laurel, e faa-me admitir a verdade a mim mesma, de que no o odeio, de que no o desprezo, de que... 
    Soltou a mo ferida dele e afastou-se. 
    - Quero que me deixe limpar esse ferimento e fazer um curativo - declarou, agitada. - Estamos num local muito isolado. Se esse corte infeccionar, eu no saberia 
nem como conseguir ajuda. 
    Damian conformou-se. 
    - Tem razo. - Enrolou o leno na mo machucada e sorriu polido. - Voc se veria sozinha com um marido indesejado e incapacitado. Desculpe-me pelo egosmo, Laurel. 
Por favor, sirva-se de limonada. Eleni preparou-a especialmente para voc. Vou cuidar deste corte e, ento, jantamos, Voc me d licena? 
    Laurel assentiu. Sozinha no terrao, voltou-se para o oceano.  medida que milhares de estrelas se acendiam no negro cu aveludado, lgrimas foram brotando de 
seus olhos, inexplicavelmente. 
    
    Laurel acordou cedo na manh seguinte. 
    O coro de cigarras persistia, acompanhado agora pelo trinado de um pssaro. No era como despertar ao som do despertador, ou das buzinas dos carros presos no 
congestionamento. 
    Trajando um vestido amarelo de vero, perambulou pela casa at chegar  cozinha. Eleni saudou-a com um sorriso, uma xcara de caf preto bem forte e uma expresso 
indagadora, com certeza querendo saber o que preparar-lhe como desjejum. 
    Aps muita mmica e algum mal-entendido que terminou em risadas, Laurel acomodou-se ao balco de mrmore para saborear uma tigela de iogurte fresco com morangos 
fatiados. A porta do terrao aberta deixava entrar uma brisa com aroma de flores e mar, aguando-lhe o apetite. Depois de tomar a segunda xcara de caf no terrao, 
saiu para caminhar na grama. 
    Era incrvel como uma boa noite de sono e o sol da manh podiam mudar o aspecto de tudo. No dia anterior, aquela casa parecera-lhe austera, mas agora via com 
que perfeio ela se inseria naquele cenrio, alis, longe de ser desagradvel. Proporcionava uma sensao indescritvel estar no topo de uma montanha, com o mundo 
diante dos olhos. 
    Num impulso, descalou as sandlias e seguiu para os fundos da casa, de onde chegavam sons de marteladas. Devia ser o velho Spiro consertando alguma coisa. 
    No, no era Spiro. Era Damian, com a mesma cala jeans de pernas recortadas, luvas de couro, mocassins surrados e absolutamente nada mais. Ajoelhado na terra, 
ele batia uma marreta contra uma pedra enorme, obviamente querendo despedaa-Ia. 
    Com movimentos rtmicos, ele se mantinha absorto no trabalho. 
    Laurel sabia que era errado observ-Io s escondidas, por detrs de um cipreste, mas no conseguia tirar os olhos do marido. 
    Ele era lindo demais! O sol refletia-se em seus ombros despidos, bronzeando ainda mais a pele dourada. Seu corpo todo cintilava sob uma fina cama de suor, destacando 
a potncia dos msculos. Para completar, ele emitia um grunhido rouco, msculo, a cada marretada. 
    Laurel voltou dois anos no tempo,  poca em que vivera com Kirk. Ele malhava sete dias por semana durante duas horas na academia de ginstica completa montada 
no poro de sua manso em Long Island, mas nunca conseguira modelar o corpo  perfeio natural que Damian exibia. 
    Lembrou-se ento da sensao dos braos fortes de Damian em torno dela ao fazerem amor... 
    - Laurel? 
    Ela piscou e voltou, ao presente. Damian voltara-se e a vira. 
    Pousando a marreta, agora enxugava o rosto e o pescoo com uma toalha. 
    - Desculpe-me, no quis assust-Ia - declarou ele, aproximando-se. 
    - No assustou. Sempre acorda assim to cedo? 
    Ele descalou as luvas e pendurou-as num bolso traseiro. 
    - Sempre.  preciso comear cedo aqui no vero, ou no se faz nada. Dormiu bem? 
    Laurel fez que sim. - E voc? 
    - Sempre durmo bem quando estou em casa. 
    No era bem verdade. Damian passara metade da noite acordado, pensando em Laurel, que dormia a poucos metros de distncia. Quando finalmente adormeceu, foi atormentado 
por sonhos frustrantes. Pensara em ocupar todo o perodo da manh com um trabalho pesado, mas a viso de sua esposa descala, bela como uma Vnus com a, brisa agitando-lhe 
a saia do vestido, desconcentrara-o totalmente. 
    - O que est fazendo? - indagou ela. 
    - Uma idiotice, segundo Spiro. Pensei em preparar um canteiro de flores bem aqui. 
    Laurel franziu o cenho. 
    - Spiro no gosta de flores? 
    - Ah, gosta, mas acha que nunca vou conseguir vencer esta pedra. - Damian deu um chute no obstculo. - Imagine se vou desistir sem lutar. 
    Laurel no conseguia imaginar Damian desistindo de nada sem luta. No era por isso que ela estava ali, casada com ele? 
    - Alm disso, eu estava mesmo precisando tornear os msculos... - prosseguia ele. - Dias inteiros atrs da escrivaninha, almoos e jantares de negcios... Sempre 
descubro um jeito de emagrecer alguns quilos quando venho a Actos. 
    - Voc cresceu aqui, nesta casa? Damian riu. 
    - No, no nesta casa. - Tomou-lhe as sandlias e ajoelhou-se. - Assim que as calar, vou lhe mostrar tudo por aqui. 
    Laurel estava constrangida. 
    - No, no precisa me ajudar. No sou invlida. S estou... 
    - Grvida - completou ele, severo. Cumprida a tarefa, levantou-se e afagou a barriga dela. - E de um filho meu. 
    Ela o fitou desafiadora. Mas o contato com a mo dele a enfraquecia, subjugava. 
    Damian estendeu a mo. 
    - Vamos. 
    - No, no quero que pare seu trabalho. 
    - Esta pedra e eu somos velhos inimigos. Podemos fazer uma trgua. Venha, Laurel. Esta ilha  sua tambm. Deixe-me mostr-Ia. 
    Laurel quis contrariar, mas ele j a puxava pela mo, os dedos fortes parecendo queim-Ia. Bem, que mal havia em passear um pouco com ele? 
    Damian mostrou-lhe tudo, e com muito orgulho, a julgar pelo entusiasmo com que falava. Os antigos celeiros de pedra, os pastos, os carneiros que no passavam 
de pontinhos brancos l no fundo do vale e at as galinhas ariscas que atravessavam o caminho. Ele considerava tudo importante, e por isso mesmo os empregados o 
respeitavam. 
    Acabaram descendo um morrinho em direo ao arvoredo que parecia moldado pelo vento soprado do mar. 
    - Aqui  o corao de Actos - anunciou Damian, solene. 
    - Estas oliveiras? Voc as plantou? 
    - No, de jeito nenhum. Estas rvores so muito antigas, algumas tm centenas de anos. Mas cuido delas, levei anos para recuper-Ias. Esta propriedade passou 
muito tempo abandonada, at que a comprei. 
    - Quer dizer que no era de sua famlia? 
    - Acha que herdei a casa e as terras? - Damian balanou a cabea, descontrado. - No, a nica coisa que herdei de meus pais foi o nome... e s vezes at disso 
duvido. 
    Laurel embaraou-se. 
    - Desculpe-me. No quis ser inconveniente. 
    - No, no se desculpe. Voc tem o direito de conhecer a minha histria. - Damian respirou fundo, buscando inspirao. - Meu pai era marinheiro, Engravidou minha 
me e s se casou com ela porque ela ameaou ir  polcia e acus-Io de estupro. Abandonou-a assim que nasci. 
    Laurel ficou chocada. 
    - Oh, Damian... 
    - Sem piedade, por favor. - Damian caminhou at a muralha de pedra  beira do penhasco e admirou o mar brilhante. - Nunca acreditei muito nessa histria. Minha 
me era uma prostituta de taverna. 
    - Oh, Damian, lamento... Ele a olhou. 
    - Por qu? No contei isso para que ficasse com pena de mim, mas porque voc tem o direito de conhecer a histria podre do homem com quem se casou. 
    - Um homem honrado - completou Laurel, sincera. - Nem todo homem tomaria a deciso que voc tomou sobre o beb, sobre o nosso beb. 
    - Uma deciso que no a agradou - observou Damian. 
    - Nunca gostei que decidissem por mim. 
    Ele sorriu perspicaz. - Est me chamando de autoritrio? 
    - Vai dizer que no ? 
    Uma rajada devendo agitou os cabelos de Damian e ele afastou-os do rosto, num gesto quase infantil. 
    - Tenho a impresso de que voc e Spiro vo se aliar para me tornar humilde.
    - Voc? Humilde? - Laurel riu, incrdula. - S se ele for um milagreiro. Alis, quem  ele, afinal? 
    Damian respirou fundo o ar marinho. 
    -  apenas o homem que salvou no s minha vida, mas tambm minha alma. Ele me achou nas ruas de Atenas, quando eu tinha dez anos. Eu j tinha passado dois anos 
perambulando ao deus-dar. 
    Laurel arregalou os olhos. - Mas... e sua me? 
    Damian deu de ombros. - Certo dia, acordei e ela tinha ido embora. Tinha deixado um bilhete, algum dinheiro... No me importei. J fazia tempo que eu mesmo tomava 
conta de mim. 
    Laurel tentava imaginar o que era ser criana e ver-se de repente s no mundo. 
    - Como? 
    - Oh, no foi difcil! Eu era pequeno e gil. Vivia surrupiando frutas e tomates nas bancas. E, com um sorriso e um pouco de sorte, conseguia uns trocados dos 
turistas. - Damian afastou os cabelos que flutuavam em torno do rosto de Laurel. - Tornei-me tambm um exmio batedor de carteiras, at o dia em que Spiro surgiu 
em minha vida. 
    - Voc tentou roubar, e ele o pegou? Damian fez que sim. 
    - J era velho como Matusalm na poca, mas forte como uma oliveira. Apresentou-me duas alternativas: a polcia, ou ir com ele. Fui com ele. 
    - Mas, Damian... voc no tem uma irm? Nicholas  seu sobrinho, no ? 
    - A me dele e eu nos considervamos irmos, mas no tnhamos ligao de sangue. Retomando a histria, Spiro me trouxe para morar com ele aqui. Ento, no vero 
em que completei treze anos, um casal de americanos descendentes de gregos veio a Actos, em busca de suas origens. Spiro achava que eu merecia um futuro melhor do 
que o que ele podia oferecer e pediu aos americanos que me levassem para os Estados Unidos. 
    - E eles concordaram? 
    - Eram boas pessoas, e Spiro apostou em sua lealdade grega. Levaram-me para Nova York e colocaram-me na escola. Estudei bastante e consegui uma bolsa de estudos 
em Yale... - Damian deu de ombros. - Tive sorte. 
    - Sorte - repetiu Laurel, incrdula. 
    - Sorte, esforo prprio... quem sabe onde termina uma e comea o outro? Uma coisa  certa: no fosse Spiro, eu estaria tendo uma vida diferente. 
    - Vou agradecer a ele - decidiu Laurel. Damian surpreendeu-se. 
    - Voc? Se ele houvesse me deixado na rua, eu jamais teria invadido e transtornado sua vida. 
    - Eu sei. 
    A fim de feri-Io, Laurel podia dizer que preferia que Spiro no o houvesse recolhido do abandono, mas no o fez. Seu silncio dizia o contrrio. 
    - Matya mau - sussurrou Damian. 
    - O que significa isso, afinal? - indagou ela. 
    Damian inclinou o rosto e encostou os lbios nos dela. - Quer dizer "minha querida". 
    Laurel enterneceu-se. 
    - Gosto do som das palavras.  difcil aprender grego? 
    - Eu ensino a voc. - Ele afagou-lhe o lbio inferior. - Fao tudo o que voc quiser... 
    A Laurel cabia agora uma mentira, para proteger-se, mas como mentir quele homem, que acabara de se abrir para ela? 
    - Acho que no sei o que quero, Damian. S sei que, quando estou com voc... 
    Ele tomou-lhe a boca num beijo profundo, apaixonado. Ela resistiu por alguns segundos, ento, enlaou-lhe o pescoo e retribuiu. 
    
    
    CAPTULO DEZ
    
    Damian estava desconcertado com o beijo de Laurel. 
    No devido  paixo ardente que revelava, mas por conter um sabor de derrota. 
    Ela lhe pertencera naquela noite em Nova York, mas apenas temporariamente. Agora, abraando-a no topo de uma colina refrescada pela brisa do mar Egeu, fez um 
voto secreto. Dessa vez, quando fizesse amor com ela, iria t-Ia para sempre. 
    Estaria estreitando-a com muita fora? Beijando-a com mpeto excessivo? Provavelmente sim, e deveria controlar-se ... mas no conseguia, no quando tinha a boca 
de Laurel to macia e dcil sob a sua, no quando sentia o descompasso do corao dela. O desejo a consumia tanto quanto a ele. O desejo e algo mais. 
    No conseguia pensar. S conseguia sentir. Quando ela gemeu baixinho e se apertou contra ele, para que sentissem seus corpos moldados um ao outro, ele quase 
perdeu a cabea de excitao. - Damian... Damian, por favor... 
    Ele afundou os dedos nos cabelos dela, contornando-lhe as faces com os polegares, e fez com que levantasse o rosto. Viu olhos obscuros de desejo, o rubor tomava-lhe 
as bochechas. 
    - Diga - murmurou ele, como da primeira vez. - Diga, o kal mou. 
    Laurel roou os lbios nos dele. 
    - Faa amor comigo - -pediu ela, e suspirou. 
    Damian ergueu-a nos, braos e levou-a a uma torre de pedra, parte integrante da muralha. 
    Fora dali que, mil anos antes, guerreiros haviam protegido a ilha dos ataques dos piratas. Agora, ao acomodar a esposa sobre um monte de feno limpinho e cheiroso, 
Damian sabia que estava para lutar numa batalha em que no se saberia quem era o vencido e quem era o vencedor. 
    Ordenou a si mesmo que a despisse devagar, a despeito da urgncia que o devorava. Mas quando ela pousou as mos em seu peito e comeou a desliz-Ias em sentido 
descendente, at chegar a sua excitao enrijecida, o restinho de controle que mantinha evaporou-se. 
    Avido, Damian arrancou-lhe o vestido de vero e viu-a toda seda e rendas sobre uma pele quente e perfumada. Tentou de novo desacelerar o processo, mas Laurel 
no o deixava. Beijando-o com ardor, ela massageou-lhe os ombros e o peito musculosos, tocou-lhe o ventre rijo e introduziu os dedos sob o elstico da bermuda. Com 
um grunhido, ele levou as mos para junto das dela e, juntos, livraram-se da pea. 
    Finalmente, tinham pele contra pele, calor contra calor, isolados no universo. 
    - Damian... - murmurou Laurel. 
    Ele inclinou o rosto sobre o dela e beijou-a. - Sim, querida ... Sim, o kaloz mou. 
    No instante seguinte, ele estava dentro dela, mergulhado em seu ponto mais ntimo. 
    Pouco antes de desintegrar-se nos braos do marido, Laurel por fim admitiu a si mesma a verdade. 
    Estava apaixonada, completamente apaixonada, por Damian Skouras. 
    Muito tempo depois, sob o sol abrasador do meio-dia, voltaram para casa. 
    A empregada fechara as persianas de todas as janelas, a fim de manter o saguo sombreado e fresco. Tudo estava em silncio, com exceo das ps do ventilador 
girando lentamente no teto. - Onde estar Eleni? - indagou Laurel, olhando em torno. 
    - Por qu? Precisa de alguma coisa? - Damian puxou-a de encontro a si e beijou-a. - Eu a servirei. No quero dividir voc com mais ningum. 
    - No estou precisando de nada, Damian. S imaginei - Ela enrubesceu. - Se ela nos vir, vai saber que estivemos... 
    Damian sorriu. Havia feno emaranhado nos cabelos de Laurel, e sua pele rosada era uma indicao de que passara horas ardentes nos braos dele. 
    - Ela vai saber que fizemos amor, keeria mou - concluiu, com naturalidade.   
    - O que quer dizer keeria mou? 
    - Quer dizer"minha esposa". - Damian beijou-a nos cabelos. 
    - E o marido pode fazer amor com sua mulher sempre que quiser. - Tocou-lhe o queixo e a fez levantar o rosto. - Em Actos, em Nova York... em qualquer lugar, 
desde que ela tambm queira. Concorda? 
    - S se as mesmas regras se aplicarem  esposa. Damian sorriu. 
    - No aprendeu na escola que a democracia foi inventada aqui, nestas ilhas? 
    Laurel aquiesceu. - Sendo assim... 
    Erguendo-se na ponta dos ps, aproximou os lbios do ouvido do marido e sussurrou-lhe algo. 
    Damian riu. 
    - Eu no teria sido mais criativo! 
    Tomou-a nos braos e carregou-a escada acima, rumo ao quarto de ambos. 
    Os dias, e as noites, passaram voando, correspondendo a cada um uma revelao. 
    Damian, o homem capaz de tudo, de salvar uma corporao em apuros a investir contra uma pedra, tinha um defeito. 
    Um defeito grave, na opinio de Laurel. Ele no sabia jogar baralho. 
    Mas jurou que sabia jogar bacar e que at j ganhara um ou dois dlares num jogo de pquer. 
    Laurel no se deixou lograr. Como podia ter chegado aos quarenta anos sem aprender a jogar baralho? 
    - Trinta e oito - corrigiu ele, dispondo-se a aprender, se ela quisesse ensinar. 
    Das seis rodadas que j haviam completado, ele perdera todas. 
    - Ah, esse jogo no  muito interessante... - resmungou ele, justifIcando o fiasco. 
    - Bem, podemos jogar por pontos - sugeriu Laurel. 
    - Mesmo assim,  muito chato... Que tal apostarmos dinheiro? 
    - Est bem. Um dlar por rodada. 
    Damian olhou-a ainda mais desanimado. 
    - Chama isso de aposta? 
    Laurel empertigou-se. 
    - Saiba que sou campe no oficial de baralho no circuito Milo-Paris. O que quer apostar? 
    Ele sorriu maroto. - Uma pea de roupa por rodada... Ela estreitou o olhar. 
    - Acho que voc vai se dar mal... 
    Meia hora depois, Laurel estava s de cala jeans e suti. As sandlias, o cinto, a camisa e at a fita com que amarrara os cabelos estavam espalhados sobre 
o tapete branco da sala de estar. - Isso no  justo - reclamava. - Voc j sabia jogar! 
    Damian sorriu vitorioso. Acabava de vencer mais uma rodada. 
    Sentado no tapete, recostou-se nas almofadas e cruzou os braos. - E ento? 
    Laurel contraiu os lbios e tirou um brinco. 
    - Desde quando brincos so peas de roupa, keeria mou?  questionou ele. - No vou deixar por menos. 
    Constrangida, ela abriu o zper da cala e tirou-a. 
    - Vou virar esse jogo - prometeu. - A, vou me vingar, voc vai ver! 
    Irnico, Damian embaralhou e distribuiu as cartas mais uma vez. Ganhou. 
    Laurel sentiu um calor incmodo no ventre. 
    - Damian, voc no vai me fazer tirar... 
    Seus olhares se encontraram. Ela engoliu em seco, ficou de joelhos e abriu o fecho do suti. Sem pressa, baixou dos ombros uma ala de cada vez e, por fim, colocou-a 
de lado. 
    Damian ofegava, sem tirar os olhos de cima dela. 
    - Pronto - murmurou Laurel. 
    Com um grunhido rouco, Damian derrubou-a sobre o tapete. 
    A partir da, por um longo tempo, os nicos sons na sala eram suspiros e sussurros de amor. 
    Damian ainda no acreditava que Laurel sabia cozinhar. Discutiram a respeito, certa tarde, no meio de um campo de margaridas, ele com a cabea no colo dela. 
    Indignada, ela mencionou a massa de po fermentado que ele encontrara em sua cozinha em Nova York. Desdenhoso, ele lembrou que pensara tratar-se de um experimento 
qumico mal-sucedido. 
    Laurel arrancou um punhado de margaridas e espalhou-as sobre o peito dele. 
    - Um dia, voc vai provar meu po e comprovar que  o mais gostoso do mundo. 
    - Mal posso esperar... 
    - Pode perguntar a Grey, meu vizinho! 
    - Ele no conta. Est embasbacado por voc e elogiaria seu po mesmo que tivesse gosto de papelo. 
    Laurel ficou estupefata. 
    - Isso  uma ofensa! Saiba que Grey  apaixonado pela esposa, Susie! 
    Damian ergueu o tronco e entrelaou os dedos nos dela.  
    - Folgo em saber. Tambm sou apaixonado pela minha... 
    Laurel espanou uma ptala de margarida dos cabelos dele. 
    - Jura? 
    Ele precisava contar-lhe um fato. No tinha por que adiar mais. 
    No significava nada para ele, mas sua esposa tinha o direito de saber. 
    - J lhe contei que fui casado uma vez? Laurel deixou de sorrir. 
    - No. 
    - Pois fui. Durou exatas trs semanas. 
    - O que aconteceu? - Laurel ergueu a mo. - No, deixe-me adivinhar. A moa lhe serviu papelo dizendo que era po e voc a mandou passear. 
    - Antes tivesse sido! O problema era que no tnhamos nada em comum. Ela queria meu nome e meu dinheiro, enquanto eu... 
    - O que voc queria? 
    - Foi um equvoco - desconversou Damian. 
    - Mas por que se casaram, ento? - insistiu Laurel. - Ela estava grvida tambm? 
    Ao ver Damian endurecer o semblante, ela se arrependeu das palavras impensadas. 
    - No, ela no estava grvida - replicou ele. - Nesse caso, ainda estaramos casados, eu lhe garanto. 
    - Por dever - concluiu Laurel. Levantando-se, espanou as partculas de flores das roupas. - Claro. Esqueo-me de quo nobre voc , Damian. Desculpe-me. - Tomou 
o rumo de casa. 
    Damian segurou-a pelos ombros e virou-a de frente para ele. 
    - O que h com voc, Laurel? Est zangada comigo por eu ter me divorciado de uma mulher que no amava? Ou por admitir que teria agido corretamente com ela, se 
necessrio? 
    - No estou zangada com voc - declarou ela. - S gostaria que no me culpasse por ser curiosa, Damian. Afinal, acabo de saber que voc j teve uma esposa. 
    - Esse casamento no significou nada, eu j lhe disse. Conhecemo-nos, pensamos estar apaixonados e nos casamos. Quando percebemos a verdade, j era tarde demais. 
    -  o que acontece, quando uma pessoa se casa por impulso... Damian sacudiu-a, fumegante de raiva. 
    - No ouse comparar esse casamento com o nosso! Casei-me com voc  por... por... 
    - Porque eu estava grvida. 
    - No. Quero dizer... 
    - No precisa explicar - dispensou Laurel, glida. - Ambos sabemos quo honrado  voc . Voc se casou comigo pelo bem de seu filho e pelo mesmo motivo continuar 
casado. Certo? 
    Damian agarrou-a nos braos e beijou-a, exatamente como fizera ao anunciar que a tomaria como esposa. 
    Mas Laurel no correspondeu. No sentia nada. Nem desejo, nem raiva. Nada. Desvencilhou-se dele. 
    - Deixe-me em paz! 
    Com isso, iniciou a subida da colina, rumo  casa. 
    Damian tinha os punhos cerrados. Onde foi que errara? Imaginara que haviam superado o problema, que Laurel finalmente se conformara s circunstncias daquele 
casamento, mas via que no. 
    Estivera ela fingindo sempre que fizeram amor? Mesmo abandonada em seus braos, beijando-o, tocando-o, desejava que ele nunca a houvesse forado a se casar? 
Porque ele forara, que fato. Cus, agira como um dspota! 
    De qualquer forma, agora eram marido e mulher. Laurel tinha de aceitar o fato. Quanto quela briga que tinham tido... bem, ele a faria esquecer aquela bobagem 
ao lev-Ia para a cama,  noite. 
    Respirou fundo, enfiou as mos nos bolsos e contemplou o oceano. No, Laurel no fingira sempre que fizeram amor. Seus suspiros e sussurros tinham sido verdadeiros. 
    Se fossem falsos, teria percebido. No teria? 
    
    No quarto em que passara a primeira noite naquela casa, Laurel mirava-se no espelho da penteadeira. 
    No o ocupara mais, desde ento. Todas as outras noites, alm de muitas manhs e tardes, passara no quarto de Damian... na cama dele. 
    Com mo trmula, pegou a escova com cabo de prata e comeou a arrumar os cabelos. 
    O que acontecera com ela naquela tarde? Damian j fora casado uma vez. E da? Ela tambm j tivera um relacionamento antes, um casamento informal, ainda que 
Kirk nunca o considerasse como tal. Fora fiel, amorosa e, ao ver-se trada, seu corao no ficara menos despedaado do que se fosse a sra. Kirk Soames. Amara-o 
de verdade, como a um marido... 
    Incapaz de sufocar o choro, largou a escova e enterrou o rosto nas mos. 
    No era verdade. Nunca amara Kirk realmente, sabia agora. 
    O que sentia por Damian fazia seus sentimentos por Kirk parecerem insignificantes. 
    Isso explicava seu vexame daquela tarde. 
    Levantou o rosto e analisou os olhos inchados refletidos no espelho. 
    Damian lhe contara que j se casara uma vez, por impulso, e que a unio fracassara. Conclura, ento, que ele se casara com ela tambm por impulso, cumprindo 
um dever. 
    Oh, como esperara que ele negasse! 
    Casei-me com voc porque te amo, esperara que ele dissesse. Porque sempre vou te amar. 
    Mas ele no dissera. Damian se casara com ela apenas para que o filho tivesse um pai.  Ao mesmo  tempo que reconhecia sua atitude correta, decente, ansiava por 
ouvi-l o declarar que a desposara por amor. 
    Mas ele jamais faria tal declarao. Era esposa de Damian Skouras, mas no o amor de sua vida. Davam-se bem na cama, mas, se ela continuasse a fazer cena como 
as daquela tarde, nem aquilo  teriam mais. 
    Contraiu os lbios, amargurada. Sabia tudo sobre homens como Damian e suas promessas de fidelidade. 
    - Laurel? 
    Atravs do espelho, Laurel viu a porta se abrir. De roupo felpudo; Damian manteve-se  soleira. Sabia, por experincia, que ele no usava nada por baixo. Teve 
que se segurar para no se atirar nos braos dele. 
    A dor e o orgulho mantinham-na firme no lugar. Laurel voltou-se na banqueta. 
    - Sim? 
    - Est melhor? 
    Ela declinara o jantar, alegando estar com dor de cabea. Jamais teria revelado que o que doa era seu corao. 
    - Muito melhor, obrigada. Eleni trouxe-me ch e aspirina. Damian avanou um passo. 
    - J  tarde. 
    -  mesmo? Nem notei. 
    Ele aproximou-se mais, erguendo a mo, e ela  temeu que ele lhe tocasse os cabelos. Seria sua perdio. Mas ele apenas endireitou o espelho da penteadeira. 
    - Voc vem dormir? - indagou. 
    Laurel voltou-se para o espelho. Como podia ele agir to descontraidamente aps a discusso feia que tinham tido? Talvez j houvesse esquecido. No que lhe dizia 
respeito, ela era sua esposa e devia acompanh-Io ao leito conjugal, no qual, alis, ela sempre. se mostrara  vontade. Engoliu em seco ao recordar o que j haviam 
feito naquela cama. 
    Por que o fato de amar um homem que no a amava, que jamais a amaria, de repente fazia tudo parecer to vulgar? 
    - Vou passar esta noite aqui - informou, pegando a escova outra vez. - Ainda estou com um pouco de dor de cabea. 
    - Quer que eu mande buscar um mdico em Creta? 
    - No, de jeito nenhum. 
    - Tem certeza? Laurel, se no estiver se sentindo bem... 
    - Eu estou bem. O beb est bem. - Ela deu um sorriso fraco no espelho. -  apenas um velho hbito meu, Damian. Gosto de ter uma noite s para mim. Kirk costumava 
dizer que... 
    - Kirk? 
    - O homem com quem vivi. Ou melhor, o homem com quem pensei em me casar. Nunca lhe falei sobre ele? 
    - No. 
    Laurel olhou para Damian atravs do espelho e arrependeu-se da falta de tato. 
    - Damian... 
    Mas ele j seguia para a porta, junto  qual se deteve. 
    - Tem razo. Uma noite separados vai nos fazer bem. At amanh. 
    Damian fechou a porta com fora e seguiu para a sute principal, contendo o impulso de esmurrar a parede. Escancarou s portas duplas do terrao. O clido ar 
noturno envolveu-o, sufocante. 
    Ento, Laurel j vivera com um homem. E da? No importava. 
    Agora, estava casada com ele, certo? 
    Mas casara-se sob protesto. Sob a ameaa de perder a guarda do filho. Vtima de chantagem. 
    Deu meia-volta e esmurrou a parede. Ante a dor aguda, levou os dedos  boca e sentiu um gosto de sangue. Gostaria que fosse o sangue do tal Kirk. Ora, devia 
ser um idiota, tendo aberto mo de Laurel.  
    Qualquer homem a desejaria. Qualquer homem se apaixonaria por ela.
    Ento, Damian enxergou a verdade. Amava Laurel. Amava sua esposa. 
    - Eu a amo - sussurrou  noite, e riu incrdulo. Como no percebera isso antes? 
    E talvez ela o amasse tambm. 
    Levantou o rosto para o cu sem lua, como se a resposta estivesse l, junto aos milhes de estrelas cintilantes que o adornavam. 
    Isso explicaria tudo. 
    A maciez dela em seus braos. A paixo que ela no conseguia disfarar sempre que ele a tocava. E at sua reao exacerbada naquela tarde, aps ele contar-lhe 
que j fora casado antes. 
    Seu corao encheu-se de esperana. Talvez aquilo que interpretara como raiva fosse, na verdade, dor. Talvez, ao saber de sua ex-mulher, ela houvesse sentido 
o mesmo cime que ele sentira ao saber de Kirk. 
    Mas, se o amava, por que ela decidira dormir sozinha? Teria apreciado tanto assim contar-lhe que j vivera com outro homem e quase o desposara? 
    Damian respirou fundo. Sempre orgulhara-se de saber como fazer um trao direto entre A e B num diagrama, mas agora sentia-se andando em crculos. 
    S havia uma coisa a fazer. Voltar ao quarto de Laurel, arrast-Ia de volta  sute principal e sacudi-Ia, ou beij-Ia, at que confessasse o que sentia de fato 
por ele. 
    O telefone tocou. Quem podia ser quela hora adiantada? 
    - Quem quer que seja, espero que tenha um bom motivo para estar telefonando. 
    Era Hastings, seu advogado particular, ligando de Nova York. 
    - Parece que estamos com um problema, sr. Skouras.  Damian sentou-se na beirada da cama, apreensivo. Ao saber do que se tratava, ficou rubro de dio, comparvel 
a um vulco prestes a explodir. 
    - Gabriella quer me processar por quebra de promessa?! Ela est louca? Vai vender a histria aos jornais se eu no atender a suas exigncias? E da... - Empalideceu. 
- Se ela arrastar minha esposa para essa lama... 
    Segundo o advogado, Gabriella tinha como trunfo o fato de ter tido apenas Damian como amante desde que se divorciara. 
    Damian agarrou o fio do telefone. 
    - Pois bem, Hastings, preste bem ateno no que quero que voc faa... - Aps dar as instrues, finalizou: - Consiga as informaes para amanh. Isso mesmo. 
Amanh, nos vemos em Nova York. 
    Furioso e determinado, gastou os minutos seguintes tomando providncias. Falou com Spiro pelo interfone e telefonou para o piloto do jatinho, em Creta. 
    Deveria acordar Laurel e avis-Ia de que estava partindo? No. Como explicar-lhe que sua vingativa ex-amante armava o cenrio de um escndalo, ela no papel de 
ingnua abandonada e Laurel como a vil calculista que engravidara de um milionrio para dar o golpe do ba? 
    Pela manh, Spiro lhe diria que ele voltara a Nova York devido a um negcio urgente. Ela no ia gostar, mas seria s por um dia ou dois. De volta a Actos, ele 
a tomaria nos braos, declararia seu amor e, se os deuses quisessem, ouviria dela que o amava tambm. Se ela no dissesse... ora, se ela no dissesse, ele a faria 
am-Io, beijando-a at apagar de sua mente a lembrana do tal Kirk, de modo que pudessem recomear do zero. 
    Precisava apenas rev-Ia, mais uma vez, antes de partir. Saiu ao corredor s escuras. Nenhuma luz escapava do quarto de Laurel. Sem fazer barulho, abriu a porta 
e entrou. 
    Ela dormia a sono solto, deitada de costas. Como estava linda. E como a adorava. 
    - Kali mou - murmurou. - Meu amor. Inclinou-se e roou os lbios nos dela. Ela se mexeu um pouco e suspirou. Damian lutou para no estender-se ao lado dela e 
aperta-Ia junto ao corpo. 
    Primeiro, cuidaria de Gabriella. Com as feies endurecidas, deixou o quarto da esposa, fechando a porta devagar, 
    Gabriella que o aguardasse. 
    
    CAPTULO ONZE
    
    Laurel despertou para um sol brilhante com a memria to etrea quanto uma nuvem. 
    Sonhara, ou Damian entrara mesmo em seu quarto no meio, da noite, beijara-a e chamara-a de "minha amada"? 
    Parecera to real... Mas no podia ter sido. Haviam brigado. Ele at tentara fazer as pazes, mas ela se recusara. 
    Soergueu-se na cama, afastou o lenol que a cobria e esfregou as mos no rosto. Ou melhor, ela no recusara a oferta de paz. Praticamente o esbofeteara, esfregando 
em seu nariz o relacionamento que tivera com Kirk. Por que fizera aquilo? O homem que amava, o nico que j amara, era Damian. 
    Vestiu-se rapidamente, sem caprichar muito. Tinha pressa para retificar o dano que causara na noite anterior. Damian no a amava, no ainda, mas gostava dela. 
Ao menos, estava gostando, at ela fazer aquela cena horrvel. 
    Bem, s havia um jeito de remediar aquela situao. 
    Tinha que contar a verdade a Damian. Pouco importava o orgulho e a dor que sentiria ao confessar que o amava sem ouvir dele que a amava tambm. Iria procura-Io, 
dizer-lhe que Kirk nunca representara nada em sua vida e que nenhum outro homem jamais representaria, exceto ele. 
    Sentia o corao acelerado, de apreenso e expectativa. Aps romper com Kirk, jurara nunca mais mostrar-se to vulnervel a um homem. Mas Damian no era um homem 
qualquer. Era seu marido, seu amante, o homem que sempre amaria. 
    Endireitou os ombros e saiu ao corredor. 
    Damian no estava no quarto dele. No era de surpreender. J passava das oito horas, era tarde, pelos padres dele, e naquela manh nada o segurara na cama. 
No tivera a ela aninhada em seu brao, a cabea apoiada em seu ombro, sussurrando-lhe "bom dia" lnguida e sedutoramente. 
    Ele no estava na cozinha, tampouco, nem no terrao, bebericando a segunda xcara de caf enquanto repassava com Spiro os trabalhos a serem realizados naquele 
dia. 
    Encontrou Eleni aguando os vasos de amor-perfeito e brinco-de-princesa. 
    - Kalimra sas. 
    - Kalimra sas, Eleni - cumprimentau Laurel. - Sabe onde est o sr. Skouras? 
    A empregada ergueu as sobrancelhas. - Madame? 
    - Meu marido, tem idia de onde ele passa estar? - Laurel balanou a cabea. - Esquea. Pode deixar que eu o encontro. 
    Mas no encontrou. Ele no estava no celeiro, nem passeando sobre a muralha, nem marretando a pedra. 
    - Kalimra sas. 
    Era Spiro. Aproximara-se dela sem fazer barulho, como uma sombra. 
    - Kalimra sas - respondeu Laurel. Sabia que o ancio entendia algumas palavras em ingls. Talvez conseguisse inform-Ia do que queria saber. - Spiro, sabe onde 
est o sr. Skouras... Damian? 
    O velhinho respondeu do jeito que sabia: - Sair... ilha... senhora. 
    Laurel franziu o cenho. 
    - Ele deixou a ilha? Foi para ereta? 
    - Ir... Nova York. Negcio. 
    - A negcios - repetiu Laurel. 
    Ento, sem poder se conter, comeou a chorar. Spiro afligiu-se. 
    - No... chorar... senhora.  
    - A culpa  minha... -murmurou ela. - Toda minha. Ns brigamos e eu o magoei muito ... Nunca vou poder dizer a ele o quanto...
    Sentou-se num banco e enterrou o rosto nas mos. Spiro observava-a preocupado, sem saber como ajudar. Ofereceu-lhe um leno. 
    - Tudo... ficar... bem. 
    Laurel assoou o nariz e levantou-se. 
    - No, no vai ficar tudo bem. Voc no entende, Spiro. Eu menti para Damian. Foi uma mentira horrvel. Eu disse coisas cruis... 
    - Voc... ama... ele - adivinhou .o ancio. Laurel aquiesceu. 
    - Sim, eu o amo, de todo o corao. Se ao menos eu o houvesse acompanhado ontem  noite. Se no tivesse sido to orgulhosa. Se ao menos pudesse ir ao encontro 
dele agora .. 
    Era o que Spiro imaginara. Damian e a esposa haviam brigado. 
    Por isso ele a deixara no meio da noite. 
    - Aonde vai a essa hora? - questionara, ao ver Damian pronto para partir. 
    - Para Nova York - respondera Damian. - E, antes que pergunte, Laurel no sabe que estou indo e no vou contar a ela. 
    - O que vou dizer quando ela perguntar? 
    - Diga o que quiser - respondera Damian. 
    O ancio franziu o cenho. Damian e essa mulher amavam-se profundamente, era evidente, mas, par motivos alm da compreenso, no reconheciam o fato. 
    - Spiro? - chamou Laurel. Mais calma, exibia os olhos lmpidos e cheios de determinao. - Sei que voc ama Damian. Bem, eu tambm o amo. Preciso dizer-lhe que 
nunca houve ningum alm dele e que nunca haver. 
    Diga o que quiser... 
    O velho endireitou os ombros. 
    - Sim, senhora... dever... contar... a ele. Vou... ajudar. 
    
    No auge do vero, a cidade de Nova York sufocava-se em meio ao calor terrvel. 
    Fazia calor em Actos tambm, mas l o sol brilhante, o mar lmpido e o cu claro cercavam a terra de uma beleza mstica. 
    Em Manhattan, uma camada cinzenta de poluio impedia que se visse o sol em todo o esplendor. O ar era pesado, opressivo. 
    Era com alvio que Damian tamava o elevadar rumo a seu apartamento de cobertura. Tivera um dia cheio. 
    Despiu o palet, tirou a gravata e ligou o ar-condicionado. Uma corrente de ar frio refrescou o saguo. Tanto o chofer quanto a empregada estavam de frias, 
de modo que tinha o lugar s para si. Isso era timo. 
    De olhos fechados, sentiu o corpo resfriar-se ao desabotoar a camisa e arregaar as mangas. No bancaria o cidado civilizado naquela noite, no aps lidar com 
Gabriella. Passara uma hora trancado numa sala com ela e seus advogados, O perfume horrvel dela ainda impregnava-lhe as narinas, 
    - Tem certeza de que quer uma reunio frente a frente com ela? - questionara seu advogado, Hastings. 
    Damian teria preferido estrangular a mulher, mas a reunio era a nica alternativa possvel. Enquanto a vigarista chorava lgrimas de crocodilo no lencinho de 
renda, fazendo-se de vtima, ele imaginou o que foi que vira nela um dia. 
    O cabelo oxigenado. A maquiagem bem-feita, mas excessiva.  As jias vistosas, que ele lhe dera, alis. Tudo o ofendia. Mas mantinha-se calmo tendo em mente a 
ltima imagem de Laurel, dormindo resplandecente na noite tranqila de Actos. 
    Por fim, cansara-se da discusso legal e da atitude de Gabriella. 
    - Basta. 
    Todos olharam para ele. Satisfeito com a ateno, Damian atirou sobre a mesa o dossi com as informaes que obtivera a seu respeito, 
    - O que  isso, querido? - indagara ela, afetada. Pela primeira vez na reunio, ele sorriu. 
    - Seu passado, querida, alcanando-a. 
    Plida, Gabriella abriu a pasta e... fim de farsa. Comeou a xing-Io de tudo quanto era nome e a proferir ameaas descabidas, fora de si. 
    Enquanto isso, o advogado dela tomava conhecimento do contedo do dossi. Havia uma lista com os nomes de todos os homens com quem ela j se envolvera e fotos 
recolhidas dos arquivos de vrios detetives particulares, incluindo uma com ela de topless sentada entre as coxas de um homem nu numa praia cheia de palmeiras. 
    Damian mal se conteve ao ver o advogado de Gabriella deixar a sala sem dizer palavra. 
    - Aos detetives particulares! - brindou Damian, servindo-se de vodca com gelo. Com outro copo na mo, subia agora para o quarto em que fizera amor com sua esposa 
pela primeira vez. E fora amor. Tinha certeza agora. Era ilgico, era embaraosamente romntico, mas j no tinha a menor dvida de que se apaixonara por Laurel 
 primeira vista. 
    Mal podia esperar para dizer-lhe isso. 
    Assim que chegasse a Actos, iria tom-Ia nos braos e despejar o que estivera em seu corao todo o tempo: que a amava e sempre amaria, que no importava quem 
ela amara no passado, porque ele, Damian Skouras, era seu futuro, e s o futuro importava. 
    Pousou o drinque, despiu o resto das roupas e entrou no banheiro. Seu jatinho j o aguardava no aeroporto. Em poucas horas, estaria em casa. 
    Tomou um banho rpido. No havia um minuto a perder. Quando mais cedo partisse, mais cedo se veria nos braos de Laurel. 
    S precisava passar em mais um lugar. 
    Com uma toalha presa  cintura, passou os dedos pelos cabelos molhados e pegou de novo o drinque. 
    Iria  joalheria Tiffany's. No dera a Laurel um anel de noivado. 
    Agora, repararia a falta, com um pouquinho de atraso. O que ela preferiria? Diamantes e esmeraldas? Diamantes e safiras? Talvez fosse melhor comprar-lhe logo 
vrios anis. 
    Desceu a escada animado. Mais um drinque, no alcolico, pois queria a mente lcida na hora da escolha da jia, e sairia. 
    Mas o que era aquilo? 
    O painel de seu elevador privativo indicava que algum estava subindo  cobertura. No estava esperando ningum. A portaria no deixaria ningum subir. 
    A menos que fosse Laurel. Seu corao descompassou-se. 
    No era possvel: Laurel estava em Actos. No conseguiria ir embora da ilha sozinha, a menos que Spiro... 
    Spiro no aprovara sua partida repentina: Aquele velho teimoso sempre fizera tudo a seu modo, sem ligar a mnima para o que ele desejava. 
    Teria Spiro tomado uma atitude drstica, outra vez, com relao a sua vida? 
    O elevador chegou e Damian prendeu a. respirao. As portas se abriram... e surgiu Gabriella. 
    - Surpresa! - saudou ela, irnica. 
    Ao v-Ia num vestido cor-de-rosa transparente que no deixava nada  imaginao e lbios carregados de batom vermelho, Damian sentiu tanto dio que ficou mudo 
por alguns segundos. Por fim, recuperou a voz. 
    - No quero nem saber como entrou sem que a portaria me avisasse. Simplesmente d meia-volta, entre nesse elevador e desaparea da minha vista! 
    - Damian, querido, isso  jeito de receber uma visita? - Gabriella foi direto ao bar. - O que est bebendo? Hum, parece vodca. Acho que vou querer tambm, mas 
bem pouquinho, s para acompanhar. 
    - Voc est surda? Fora daqui! 
    - Calma, querido, ainda nem conversamos. - Gabriella tomou um gole da bebida e pousou-a de lado. - Sei que se aborreceu esta manh, mas a culpa foi minha. Eu 
no devia ter tentado convence-Io a voltar para mim daquele jeito... 
    - Tentando me convencer a... - Damian agitou-se, nervoso. - Sem joguinhos, est bem? Voc tentou me chantagear, mas se deu mal. Agora, faa-nos um favor e d 
o fora daqui, antes que eu perca a cabea. 
    - Damian, eu entendo... Voc teve de se casar com essa mulher. Foi obrigado. Todos j sabem que essa Laurel engravidou de voc... 
    Damian estava de frente para a parede. Voltou-se to de repente que espantou Gabriella, a suas costas. 
    - Vou contar at cinco. Se no tiver ido embora, eu a pegarei pelo pescoo e atirarei dentro desse elevador. Um, dois, trs... 
    - Voc no pode me tratar assim! - gritou Gabriella. - Voc me prometeu um monte de coisas! 
    - Eu no prometi nada! Fora daqui! 
    - No se iluda, Damian. Logo vai se cansar dela. - A mulher desafivelou o cinto, abriu o vestido e exibiu o corpo nu. - Voc quer isto. Voc quer a mim. 
    Mais tarde, Damian imaginaria como deixara de ouvir o elevador fechando as portas para retornar ao trreo. A verdade era que no ouvira nada, tamanho o volume 
da prpria pulsao furiosa em seus ouvidos. 
    - Cubra-se - ordenou. 
    Nesse instante, as portas do elevador abriram-se novamente. Ao ver a expresso satisfeita e vitoriosa de Gabriella, Damian soube quem estava ali. 
    - LaureL. - murmurou, voltando-se. 
    Ao v-Io dar um passo, Laurel ergueu a mo. Seu rosto alternava expresses de choque e de dor. 
    - No! - declarou, e apertou um boto no painel. 
    Damian tentou alcan-Ia, mas bateu o nariz na porta do elevador. Nesse instante, Damian soube que perdera para sempre sua ltima chance, a nica que j tivera, 
de conquistar o amor e a felicidade. 
    
    
    CAPTULO DOZE
    
    A gua da chuva lavava as janelas. Relmpagos de fim de vero iluminavam o cu  cinzento, seguidos por troves sacudindo a metrpole. 
    Sentada  mesa de sua cozinha, Laurel olhava fixo para a caneca de caf descafeinado a sua frente. A vizinha Susie e a irm Annie evitavam entreolhar-se. 
    - Odeio caf descafeinado - resmungou Laurel. - De que adianta tomar caf sem cafena? 
    -  melhor para voc - retrucou Annie. - Com o beb e tudo...  
    - Eu sei! Fui que decidi no tomar mais caf, no? S acho burrice beber uma coisa que tem cheiro de caf, cor de caf, mas gosto de... 
    A irm levantou-se e abriu o armrio. 
    - Vejamos... Aqui tem ch de ervas, chocolate, ch-mate... 
    - Ch-mate contm mais cafena do que caf - informou Laurel. - Grande ajuda, Annie! 
    -  mesmo - lembrou-se a irm. Abriu a geladeira. - Que tal um copo de leite? 
    Laurel fez uma careta. - Ugh! 
    - Refrigerante? Suco de laranja? - Annie aprofundou-se na geladeira. - Tem um jarro l no fundo, deve ser suco de tomate. 
    - No . 
    - Molho de tomate? 
    - Nem me lembra da ltima vez em que comi macarro. 
    A irm pegou o jarro e examinou-o. 
    - No se deve guardar experimentos qumicos na geladeira... Laurel enfureceu-se. 
    - Por que disse isso? 
    Annie e Susie entreolharam-se. - Calma, Laurel... 
    - S porque h uma coisa esquisita na geladeira de algum, no quer dizer que... - Laurel respirou fundo e olhou para as companheiras. - Desculpem-me. No quero 
prend-Ias mais. Sei que tm afazeres... 
    - Eu no - declarou Susie. - Grey est assistindo  televiso. Estou livre como um pssaro. 
    - Nem eu - garantiu Annie. - Sabe como a minha vida  um tdio. 
    - Tdio? Com seu ex voltando  carga? - questionou Laurel. 
    - Alis, no est pensando em tomar essa estrada outra vez, est? 
    Annie teve o impulso de contar toda a histria a Laurel, mas conteve-se. A vida da irm j estava to complicada! 
    - Claro que no! - garantiu. - No sou mais nenhuma adolescente boba. 
    - Ah, bom! - Laurel empurrou a cadeira, levantou-se e foi  pia. - Se existe uma verdade neste mundo,  a de que os homens no prestam. 
    - pa! - protestou Susie. - O meu Grey  uma exceo! E aposto minha vida cama seu marido tambm . 
    Laurel voltou-se, os olhos faiscando de raiva. 
    - Ele no  meu marido! Estou me divorciando dele! E j lhes disse que no quere mais ouvir falar de Damian Skouras! 
    - Laurel, voc precisa desabafar! - ralhou a irm. - J faz dois meses que me telefonou aos prantos contando que havia se casado com aquele... grego safado e 
que o flagrou nos braos da amante sem-vergonha uma semana depois. 
    - No preciso desabafar nada! - Laurel levou a mo  testa, exausta. - Cus, quem me dera no ter comparecido ao casamento de Dawn! 
    A vizinha Susie entusiasmou-se. 
    - Qual nada, deve ter si da um casamento e tanto! O ex de Annie tentando reconquist-la, mais aquela amiga sua que conheceu um bonito l e acabaram tendo um 
romance louco... 
    - Stephanie - lembrou Annie. - Grande coisa! Sabe o que penso de romances loucos. Veja aonde isso levou minha irm. 
    -  mesmo - concordou Susie. - E Damian parecia to perfeito. Bonito, rico ... 
    - Querem parar de falar da minha vida? - protestou Laurel. 
    - No quero mais ouvir falar de Damian Skouras, entenderam? 
    - Est bem. - concordou Annie. - Pode nos dizer ento como pretende criar esse filho sozinha? 
    - Dou um jeito. 
    - Voc mesma se considera uma profissional em fim de carreira. 
    Laurel expressou desgosto. 
    - Obrigada por me lembrar disso. Fique sabendo que consegui economizar algum dinheiro nos ltimos anos. 
    - Mas custa muito educar um filho - preveniu a irm. - Mesmo que tenha uma poupana, se no tiver um rendimento... 
    Laurel enfureceu-se. 
    - Voc est falando como ele! 
    - Ele quem? 
    - Damian! Ou melhor, o advogado dele. "Educao  o item mais oneroso nas despesas com um filho" - citou, imitando o tom formal de John Hastings. - "O sr. Skouras 
est em condies de arcar com essas despesas." 
    Annie olhou-a complacente. - Laurel, pense bem... 
    - J disse que no vou aceitar um centavo daquele homem horrvel! 
    Susie e Annie calaram-se. Laurel estava irredutvel e de nada adiantava enerv-la ainda mais. 
    Laurel j descarregava a raiva esfregando vigorosamente a esponja na pia. Queria esquecer Damian de uma vez por todas, mas as lembranas atormentavam-na, no 
s dos momentos ntimos maravilhosos que haviam partilhado, como das patticas tentativas dele de explicar-se, procurando-a em seu apartamento naquela mesma noite 
do flagrante, quando ela lhe batera a porta na cara, e telefonando-lhe inmeras vezes, deixando gravadas as desculpas mais esfarrapadas. 
    At que desistira. 
    - Ele no a procurou mais? - indagou Annie, cautelosa. 
    - No. - Laurel juntou-se s companheiras  mesa. - Ou melhor, deixou mais uma mensagem gravada. 
    Susie e Annie entreolharam-se. 
    - O que foi que ele disse? - indagaram, juntas. 
    - Disse que no tinha o direito de me obrigar a viver com ele, que entendia que eu jamais sentiria por ele o que senti por Kirk... 
    - Kirk?! - espantou-se a irm. - Como esse monstro entrou nessa histria? 
    Ignorando a pergunta, Laurel prosseguiu: 
    - Reconheceu que errou ao me forar ao casamento e que uma unio sem amor jamais daria certo. 
    Susie entrelaou as mos sobre a mesa. 
    - Hum, sei que vo querer me matar, garotas, mas Damian Skouras est se revelando mais digno do que imaginei. 
    Annie pegou a mo de Laurel. 
    - Ser que no devia ter falado com ele, querida? Laurel desvencilhou a mo. 
    - Para qu? Mais tarde, telefonei para ele e deixei gravada a resposta. Disse que concordava plenamente com ele: que um casamento sem amor jamais daria certo, 
e que uma unio em que a esposa odiava o marido j comeada malfadada. Disse tambm que o odiava, que sempre o odiei, e que tudo no passara de sexo.  No me olhe 
assim, Annie! Quer que eu acredite que ela loira oxigenada simplesmente apareceu sem convidar e tirou a roupa? 
    Annie e Susie entreolharam-se. 
    - No  impossvel- opinou a irm. - Eu a vi no casamento de Dawn e ela no me pareceu do tipo sutil. 
    Laurel levantou-se bruscamente. 
    - S falta vocs duas me dizerem que tive uma iluso de tica! 
    - Como se no bastasse ter sido enganada por Kirk, o homem a quem pensava amar, fui trada por Damian, meu prprio marido, o nico homem que j amei... - Comeou 
a soluar. - E ainda amo! Nunca vou deixar de am-lo! - Olhou para as companheiras, os lbios trmulos. - Vo embora - pediu. - Quero ficar sozinha. 
    Susie e Annie atenderam ao pedido, mas s depois de ajuda-la a se despir e se acomodar na cama. 
    Ento, sem poder fazer mais nada para ajudar, foram embora. 
    
    Que mais lhe restava fazer?, cogitou Damian, atacando furiosamente com a marreta a pedra no quintal de sua casa em Actos. 
    Nada. Nada alm de bater naquela pedra indestrutvel de sol a sol, esperando cair exausto na cama  noite e no sonhar com Laurel. 
    Era um bom plano. Mas no funcionava. 
    J fazia dois meses que no via Laurel, nem ouvia sua voz. 
    No obstante, ela o acompanhava em todos os minutos do dia.  noite, era ainda pior. Sozinho no escuro; na cama que j partilhara com a esposa, agitava-se durante 
horas at mergulhar num sono intranqilo, povoado de sonhos. 
    Pensara em voltar a Nova York, mas no suportaria permanecer na mesma cidade em que Laurel estava. Por isso, permanecia em Actos, supervisionando os negcios 
a distncia, via computador, telefone e fax. Imaginava quando a dor em seu mago cessaria. 
    Mas a dor s fazia aumentar. 
    Eleni e Spiro j no disfaravam a preocupao. 
    - Ele vai se matar desse jeito! - afligira-se a empregada, naquela manh. - Voc tem que det-lo, Spiro! 
    Damian fingira no ouvir. Seu velhinho benfeitor no se atreveria a intrometer-se em sua vida novamente. J causara bastante estrago. 
    - Foi voc quem providenciou para que minha esposa deixasse a ilha e voltasse a Nova York? - indagara a Spiro, ao chegar  Grcia. 
    - Sim, fui eu - declarou o ancio. 
    - Com que direito, eu posso saber? 
    - Achei que devia. A mulher no era prisioneira aqui. Disse-me que tinha algo muito importante para lhe dizer. Chegaram a se encontrar? 
    Damian baixara o rosto. 
    - Chegamos. - Antes que o ancio especulasse, informou: - Assunto encerrado. No se fala mais dela aqui. 
    E nunca mais se falou. Mas isso no significava que ele no pensava nela, nem sonhava com ela. Sentiria Laurel falta de seus beijos e abraos tanto quanto ele 
sentia dos dela? 
    - Damian, a rocha no  sua inimiga - observou. Spiro, aproximando-se. 
    - E voc no  filsofo. 
    - No   pedra que voc ataca, mas a si mesmo. 
    Damian ia responder, mas conteve-se ao ver o ancio com o rosto enrugado muito afogueado. 
    - Est muito calor - comentou, descalando as luvas. - Vamos l para casa tomar uma cerveja. 
    Spiro alegrou-se. - tima idia. 
    Dali a minutos, Eleni servia-lhe a bebida no terrao da casa. Ignorando os copos, Damian passou uma garrafa aberta a Spiro e pegou outra para si. Preferiam beber 
do gargalo. 
    - Quando volta a Nova York? - indagou o ancio, mais refrescado. 
    - Tudo isso  pressa de se livrar de mim? - replicou Damian, recostado na grade, e tomou mais um gole de cerveja gelada. 
    - No pode evitar a realidade para sempre, Damian. 
    - Spiro, vamos mudar de assunto. No estou com disposio para ... 
    O velho calou-se. 
    Damian esvaziou a garrafa e pousou-a na mesa. 
    - Vou voltar ao trabalho. Acho melhor voc ficar em casa,  mais fresco. 
    - Vi o quanto ela o faz feliz, Damian, e o quanto voc a faz feliz - retomou Spiro, srio. - Spiro... 
    - Voc ainda a ama. 
    - No, eu no amo ningum! O amor nos torna idiotas! 
    O velho cruzou os braos. 
    - Ser que vou ter que lhe dar uma sova, como fiz tantas vezes aps tir-lo das ruas de Atenas, at que aprendesse a ser gente? 
    - Posso voltar ao trabalho? - desconversou Damian. 
    - Ela o ama. 
    - No, ela no me ama, seu velho chato. Ela me detesta por tudo o que sou e, principalmente, por for-Ia a um casamento indesejado. 
    - Ela o ama. 
    - No, ela ainda ama outro, seu tolo sentimental! 
    - Ela me disse que o amava profundamente. 
    Damian sentiu o corao falhar uma batida. Mas no se deixaria iludir. 
    - Voc deve ter entendido mal. No sabe bem ingls. 
    - Entendi muito bem, Damian. 
    - Nesse caso, ela devia estar mentindo. Sabia que, assim, conseguiria sua ajuda para deixar a ilha e voltar a Nova York. 
    - Voc est com medo de encarar a verdade. Ama aquela mulher, mas, porque ela o magoou, prefere viver sem ela a arriscar-se a procur-Ia. 
    Damian cedeu: 
    - Est bem! Eu a amo, sim! S que ela no me ama! 
    - Como sabe? 
    - Ela disse. Est satisfeito? 
    - Alguma vez disse a ela que a ama? 
    Damian olhou para o cu. 
    - No. No tive chance. Chegou de surpresa em meu apartamento, flagrou-me com outra mulher e no me deixou explicar nada. 
    O velho estreitou o olhar. 
    - E o que voc estava fazendo com essa outra mulher, filho? Damian enrubesceu. 
    - Nada, mas a impresso foi de que... No importa. Laurel  minha mulher. Devia confiar em mim. 
    - Claro. Voc fez por merecer a confiana dela. Engravidou-a  forou-a a se casar. 
    Damian ficou sem resposta. 
    - Eleni diz que se pode ver no rosto de uma mulher quando ela est grvida - comentou Spiro. -  Todos percebemos que nenhum dos dois estava feliz quando chegaram 
aqui. Mas, ento, tudo mudou. Foi como se ambos admitissem o que existia em seus coraes desde o comeo. 
    - Sim, eu me apaixonei por ela. Mas no  to simples. 
     - O amor nunca  simples. 
    Damian levantou-se e apoiou-se na mureta do terrao. 
    - O que devo fazer, Spiro? 
    - Siga seu corao. Procure-a e diga-lhe que a ama. E d-lhe a chance de dizer o mesmo a voc. 
    - E se ela no disser? 
    - Nesse caso, volte aqui e bata nessa pedra at esgotar seus braos. Pelo menos, saber que tentou conquistar a amada, em vez de desistir sem lutar. - O velho 
ps a mo no ombro de Damian. - Sempre h esperana, meu filho.  isso que nos faz prosseguir, no ? 
    Ao longe, na baa, um barquinho de pesca era engolfado pelo vento. As vagas altas ameaavam engoli-Io. 
    Mas o vento enfraqueceu to de repente quanto surgira. O barrquinho continuava  tona. 
    Sempre h esperana. 
    Damian voltou-se e abraou o ancio. Antes que perdesse a coragem, entrou na casa. 
    
    Elas estavam erradas. Totalmente erradas. 
    Laurel sovava furiosamente a massa de po com fermento. Susie e Annie no sabiam de nada. Annie era divorciada e Susie era casada com um homem bonzinho. Nenhuma 
das duas tivera a infelicidade de se envolver com um manaco machista como Damian Skonras. 
    Estava calor! Calor demais para se fazer po, mas de que outra maneira dispersaria a energia reprimida? 
    Soprou um fio de cabelo do rosto, passou as costas da mo na testa e recomeou a sovar. 
    Desde o dia anterior, quando, fragilizada, confessara amar Damian, vinha evitando contato com a vizinha e com a irm. No queria deixar-se influenciar por elas, 
agora aliadas do milionrio egocntrico! 
    No que houvesse possibilidade de reconciliao. Jamais perdoaria Damian por t-Ia abandonado no meio da lua-de-mel para se encontrar com aquela loira oxigenada. 
    Mas voc o magoara, Laurel, esqueceu-se disso? 
    No, no se esquecera. Mas no importava. Ele a magoara ainda mais ao partir sem se despedir. 
    Ele no a amava, enquanto que ela o amava tanto que bastava fechar os olhos para ver seu rosto, ouvir sua voz... 
    - Laurel? 
    Podia jurar que o ouvira chamar seu nome, bem ali, em sua cozinha ... 
    - Laurel, mtya mou... 
    Laurel deu meia-volta e seu corao falhou. 
    - Damian? 
    Ela sentiu as pernas bambas. Ele correu a ampar-Ia, tomou-a nos braos e carregou-a para a sala. 
    - Respire fundo - ordenou, sentando-se no sof junto dela. - No vai desmaiar agora, vai? 
    Laurel esperou a viso se desembaar. 
    - Claro que no. Eu nunca desmaio. 
    - No, s quando me v! - brincou ele. 
    - O que est fazendo aqui, Damian? E como foi que entrou? 
    - Grey, aquele amigo, me ajudou. 
    - Grey lhe entregou minha chave-reserva?! Mas ele no tinha esse direito! 
    - Cheguei em boa hora. Voc estava realizando experincias na cozinha outra vez. 
    - Eu estava fazendo po! E no mude de assunto. No tinha o direito de entrar sem bater... 
    - Eu sei, e peo desculpas. Mas achei que me deixaria no corredor, como da outra vez. 
    - Claro que deixaria. - Laurel apoiou-se nos ombros dele para se levantar. - Agora, se me d licena... 
    - Eu te amo, Laurel. 
    O corao dela encheu-se de esperana, mas o medo continuava mais forte. 
    - Voc s quer seu filho - afirmou. 
    - Eu quero o nosso filho, querida, mas, mais do que isso, quero voc. Eu te amo, Laurel. - Damian tomou-lhe o rosto nas mos. - Eu te adoro. Voc  a nica mulher 
j amei, a nica mulher que sempre amarei e, se no voltar para mim, minha vida estar perdida. 
    Os olhos dela encheram-se de lgrimas. 
    - Oh, Damian, voc jura? 
    Ele a beijou. Foi um beijo demorado, doce, maravilhoso. No final, ela estava trmula. 
    - Eu devia ter me despedido de voc naquela noite, antes de deixar a ilha, mas voc estava to zangada, e eu estava to ferido por saber que voc j tinha amado 
outro homem. 
    Laurel apressou-se em esclarecer: 
    - Eu no o amava. S falei dele para magoar voc. Nunca amei ningum, a no ser voc. 
    - Diga isso de novo - pediu Damian. Ela sorriu. 
    - Eu te amo, Damian. Nunca amei outra pessoa. Nunca vou amar. Para mim, s existe voc... 
    Ele a beijou de novo. Depois, encostou a testa na dela. 
    - Quanto a Gabriella, juro que no a chamei naquela noite... Laurel calou-o com um beijo. Dispensava as explicaes. Acreditava nele. 
    - Vamos voltar para Actos - decidiu ele, quando estavam mais tranqilos, - E convidar aquele velho intrometido para tomar champanhe conosco. 
    Laurel abraou o pescoo do marido e olhou-o apaixonada. - Nunca ningum lhe disse que  um arrogante? 
    Damian levantou-se com ela nos braos. 
    - , parece que uma pessoa j me disse isso, um ou duas vezes... 
    Seguiu para o quarto. 
    Laurel sentia o corao acelerado quando Damian a colocou na cama. 
    - Pensei que amos voltar para Actos - comentou. 
    - E vamos. - Ele comeou a desabotoar a camisa. - Mas, antes, vamos matar a saudade. 
    Laurel ficou  encabulada, mas desabotoou a blusa tambm. 
    - E quando tempo vai levar isso, querido? 
    Damian olhou-a intensamente. 
    - A vida toda, amor. 
    Sem pressa, estendeu-se na cama e abraou-a. 
    
    FIM
    
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